Um organismo é, de comum acordo,
considerado vivo quando mostra certo
grupo de reações ou
certo padrão de comportamento,
e é considerado como morto
quando o grupo de reações
e o padrão são irreversivelmente
ausentes. Esse grupo de reações
ou padrão varia de indivíduo
a indivíduo, ou de organismo
a organismo, e existe uma importante
divergência entre os termos
vida e morte, usados na vida comum
e os usados para finalidades científicas.
Por exemplo, um animal é dito
morto quando seu sistema nervoso central
para de responder a certos estímulos.
Mas o biólogo sabe que as células
de um animal morto recentemente estão
ainda vivas, e podem viver indefinidamente
se mantidas num ambiente adequado.
Nos povos primitivos a morte de um
ser humano é geralmente reputada
como um processo não natural,
e se não se verifica por um
acidente, é normalmente atribuída
à mágica hostil de inimigos
ou à atividade de demônios.
Esses povos acreditam que a união
da respiração com a
terra produz os organismos vivos e
essa ideia é defendida por
outros povos, como os antigos chineses
e os índios americanos. A morte
é devida, segundo eles, à
separação da respiração
da terra, um processo perfeitamente
reversível. O termo “vida”,
que tem uma multiplicidade de significados,
não pode ser definido com precisão
e mesmo quando é usado pelo
biólogo falta-lhe precisão.
Há até disputa a respeito
da mais simples forma de matéria
organizada que pode ser chamada de
viva, mas as formas sobre as quais
todos estão de acordo são
as unicelulares, feitas de proteínas
e ácidos nu-cléicos.
Do ponto de vista da continuidade
da espécie, a capacidade dos
organismos viventes de se reproduzir
é de importância capital,
pelo fato de passar suas características
à progênie. Do outro
lado não está claro
por que animais e plantas das ordens
superiores envelhecem e no fim experimentam
a morte natural. Em certas circunstâncias
parece que a morte de um organismo
está associada à inabilidade
de repor algumas células mais
especializadas e diferenciadas quando
sofrem a morte devido a um acidente.
Todavia, a principal causa de morte
nos seres humanos não é
a morte natural que ocorre no fim
da senescência, apesar da vida
dos seres humanos nos países
civilizados ter aumentado muito no
passado recente. (Até este
ponto o presente artigo foi traduzido
de Chambers´s Encyclopaedia,
sob o verbete “Life”).
São estas considerações
que poderíamos chamar de elementares,
sobre o fenômeno da vida, vista
como processo de ordem biológica
que atinge a todos, cuja existência
é regulada por leis de caráter
geral que, dentro de limites naturais
se aplicam a todo ser vivo. Mas, para
um ser único como é
o homem que vive neste planeta (por
enquanto não é conhecido
outro corpo celeste onde haja vida
biológica ou inteligente) há
um mundo paralelo no qual é
desenvolvida uma vida que tem alcançado
um alto grau de organização
e especialização, além
do avanço científico
e intelectual sem par na história.
É este o nosso mundo no qual
o “homo sapiens” tem criado
formas de convivência aceitáveis
durante os milênios que levou
para sair do estágio primordial.
A vida de cada um de nós é
uma vida singela, que não há
semelhança com nenhuma outra
vida, é um espetáculo
que não se repete, seja ele
para o bem ou para o mal. É
uma representação que
só se dá uma vez, e
que termina quando nós, que
somos os atores da nossa própria
vida, desaparecemos, em geral deixando
um tênue sinal de nossa passagem
por este mundo, que logo é
apagado em seu rápido e inevitável
curso. Há entre nós
os que deixam uma marca mais profunda
graças a suas realizações
em vida, mas são bem poucos
os cuja biografia consegue vencer
os séculos, respeito à
imensa massa dos anônimos. Os
outros, ou seja, nós que não
temos e não teremos biografia,
a lembrança de nós e
de nossa vida se perde logo, da mesma
maneira que desaparece uma pequena
nuvem branca no céu azul. Isso
não quer dizer que não
haja um interesse, feito de curiosidade,
de admiração ou até
de menosprezo em conhecer detalhes
da vida alheia, em particular de pessoas
que nos são próximas.
É um exercício e tanto,
pois muitos adoram contar a própria
vida, às vezes enfeitando humildemente
seus momentos relevantes, ou de um
jeito brusco oferecendo um relato
frio quanto mais aderente à
verdade. Claro está que num
mundo tão variado, com uma
humanidade tão diferente, há
aqueles que não têm nada
para contar, os que viveram e vive
uma vida apagada, na qual eles mesmos
cuidam para baixar o tom dos fatos,
se necessário, gostando de
mostrar um quadro de vida na qual
predomina uma cor de cinza. Os outros
fazem questão de divulgar com
entusiasmo as circunstâncias
que marcaram a vida deles, satisfeitos
em ter pessoas estranhas apreciando
a narrativa, falada ou escrita, da
vida de um semelhante, que sempre
tem algo de diferente e interessante
para contar.
Estive pensando. Afinal eu também
tive uma vida, longa por sinal, que
talvez, mereceria menção.
Mas os excessivos detalhes que eu
deveria citar acabariam excedendo
os limites da história, enquanto
que poder dar detalhes interessantes
levaria a mutilar a narrativa. Por
isso, achei que vou deixar para outra
oportunidade o relato da minha vida.
Está claro, porém, que
a minha vida, como a de todo mundo
(excluindo os santos) tem o seu lado
positivo e seu lado negativo; positivo
é a do bem, da ventura, da
retidão, enquanto que o negativo
encerra a transgressão à
lei divina e à lei humana e
o “erro”, os inconfundíveis
“mistakes”, que têm
o poder de influenciar e até
mudar o curso de toda uma existência.
Aliás, um único erro
incorrido em qualquer lugar e em qualquer
momento pode nos deixar, em determinada
instância, em aberto conflito
com a nossa consciência e com
a justiça dos homens.