COLUNISTA
   
Uma vida - Por Guido Definetti

Um organismo é, de comum acordo, considerado vivo quando mostra certo grupo de reações ou certo padrão de comportamento, e é considerado como morto quando o grupo de reações e o padrão são irreversivelmente ausentes. Esse grupo de reações ou padrão varia de indivíduo a indivíduo, ou de organismo a organismo, e existe uma importante divergência entre os termos vida e morte, usados na vida comum e os usados para finalidades científicas. Por exemplo, um animal é dito morto quando seu sistema nervoso central para de responder a certos estímulos. Mas o biólogo sabe que as células de um animal morto recentemente estão ainda vivas, e podem viver indefinidamente se mantidas num ambiente adequado. Nos povos primitivos a morte de um ser humano é geralmente reputada como um processo não natural, e se não se verifica por um acidente, é normalmente atribuída à mágica hostil de inimigos ou à atividade de demônios. Esses povos acreditam que a união da respiração com a terra produz os organismos vivos e essa ideia é defendida por outros povos, como os antigos chineses e os índios americanos. A morte é devida, segundo eles, à separação da respiração da terra, um processo perfeitamente reversível. O termo “vida”, que tem uma multiplicidade de significados, não pode ser definido com precisão e mesmo quando é usado pelo biólogo falta-lhe precisão. Há até disputa a respeito da mais simples forma de matéria organizada que pode ser chamada de viva, mas as formas sobre as quais todos estão de acordo são as unicelulares, feitas de proteínas e ácidos nu-cléicos. Do ponto de vista da continuidade da espécie, a capacidade dos organismos viventes de se reproduzir é de importância capital, pelo fato de passar suas características à progênie. Do outro lado não está claro por que animais e plantas das ordens superiores envelhecem e no fim experimentam a morte natural. Em certas circunstâncias parece que a morte de um organismo está associada à inabilidade de repor algumas células mais especializadas e diferenciadas quando sofrem a morte devido a um acidente. Todavia, a principal causa de morte nos seres humanos não é a morte natural que ocorre no fim da senescência, apesar da vida dos seres humanos nos países civilizados ter aumentado muito no passado recente. (Até este ponto o presente artigo foi traduzido de Chambers´s Encyclopaedia, sob o verbete “Life”).
São estas considerações que poderíamos chamar de elementares, sobre o fenômeno da vida, vista como processo de ordem biológica que atinge a todos, cuja existência é regulada por leis de caráter geral que, dentro de limites naturais se aplicam a todo ser vivo. Mas, para um ser único como é o homem que vive neste planeta (por enquanto não é conhecido outro corpo celeste onde haja vida biológica ou inteligente) há um mundo paralelo no qual é desenvolvida uma vida que tem alcançado um alto grau de organização e especialização, além do avanço científico e intelectual sem par na história. É este o nosso mundo no qual o “homo sapiens” tem criado formas de convivência aceitáveis durante os milênios que levou para sair do estágio primordial. A vida de cada um de nós é uma vida singela, que não há semelhança com nenhuma outra vida, é um espetáculo que não se repete, seja ele para o bem ou para o mal. É uma representação que só se dá uma vez, e que termina quando nós, que somos os atores da nossa própria vida, desaparecemos, em geral deixando um tênue sinal de nossa passagem por este mundo, que logo é apagado em seu rápido e inevitável curso. Há entre nós os que deixam uma marca mais profunda graças a suas realizações em vida, mas são bem poucos os cuja biografia consegue vencer os séculos, respeito à imensa massa dos anônimos. Os outros, ou seja, nós que não temos e não teremos biografia, a lembrança de nós e de nossa vida se perde logo, da mesma maneira que desaparece uma pequena nuvem branca no céu azul. Isso não quer dizer que não haja um interesse, feito de curiosidade, de admiração ou até de menosprezo em conhecer detalhes da vida alheia, em particular de pessoas que nos são próximas. É um exercício e tanto, pois muitos adoram contar a própria vida, às vezes enfeitando humildemente seus momentos relevantes, ou de um jeito brusco oferecendo um relato frio quanto mais aderente à verdade. Claro está que num mundo tão variado, com uma humanidade tão diferente, há aqueles que não têm nada para contar, os que viveram e vive uma vida apagada, na qual eles mesmos cuidam para baixar o tom dos fatos, se necessário, gostando de mostrar um quadro de vida na qual predomina uma cor de cinza. Os outros fazem questão de divulgar com entusiasmo as circunstâncias que marcaram a vida deles, satisfeitos em ter pessoas estranhas apreciando a narrativa, falada ou escrita, da vida de um semelhante, que sempre tem algo de diferente e interessante para contar.
Estive pensando. Afinal eu também tive uma vida, longa por sinal, que talvez, mereceria menção. Mas os excessivos detalhes que eu deveria citar acabariam excedendo os limites da história, enquanto que poder dar detalhes interessantes levaria a mutilar a narrativa. Por isso, achei que vou deixar para outra oportunidade o relato da minha vida. Está claro, porém, que a minha vida, como a de todo mundo (excluindo os santos) tem o seu lado positivo e seu lado negativo; positivo é a do bem, da ventura, da retidão, enquanto que o negativo encerra a transgressão à lei divina e à lei humana e o “erro”, os inconfundíveis “mistakes”, que têm o poder de influenciar e até mudar o curso de toda uma existência. Aliás, um único erro incorrido em qualquer lugar e em qualquer momento pode nos deixar, em determinada instância, em aberto conflito com a nossa consciência e com a justiça dos homens.