COLUNISTA
   
O Tártaro - Por Guido Definetti

Na última frase do artigo anterior a este, está mencionado que “aquele que tinha feito o mal era condenado ao Tártaro” – que segundo o Novo Aurélio é o local mais profundo do inferno. Na “Divina Comédia”, Dante não fala do Tártaro, e sim da Judeca (Giudecca) o lugar mais remoto do seu Inferno, onde são punidos os traidores dos benfeitores, entre eles Bruto e Cássio, os responsáveis pela conjura contra Júlio César e de sua morte, e Judas Iscariote o traidor do Cristo. O Tártaro mostra um ambiente mais benigno, ou menos maligno, do inferno tradicional. É um lugar onde os condenados sofrem penas que em princípio não são proporcionais aos crimes e às transgressões cometidos, e sim um inferno que é mais de desaprovação que de punição. Mas os poetas o viam com olho diferente, e também os religiosos, como o Abade Drioux, autor do “Précis de Mythologie”. Vamos ver então o que é que escreveu o Abade.
“O Tártaro era medonho. Os poetas o encheram de torres de ferro e de bronze, de fornalhas ardentes e de monstros horríveis. Ali reinavam as Fúrias, divindades vingadoras, obstinadas em atormentar os maus. Havia três delas: Megera, Alecto e Tisiphone, filhas de Aqueronte e da Noite. O Terror, a Raiva e a Morte as acompanhavam. Elas atormentavam os culpados durante a vida com remorsos e visões aterrorizantes; após a morte, eram dilacerados com seus chicotes sangrentos e os queimavam com suas tochas ardentes. Essas terríveis deusas tinham traje pretos manchados de sangue, um aspecto temível, com asas de morcego, serpentes no lugar de cabelo e levando tochas nas mãos. Além dessas divindades maldosas havia as três Parcas, filhas da Noite, cujos nomes eram: Clotho, Láquesis e Átropos, e tinham como trabalho o de fixar o destino dos humanos. Clotho, o mais jovem, segurava a roca, Láquesis virava o fuso, e Átropos, segurando a tesoura de ouro, cortava o fio fatal. As Parcas mesclavam a lã e a seda para marcar as vicissitudes da vida humana. A lã branca misturada com seda indicava dias felizes, a lã preta, dias tristes.
Os grandes culpados dos quais a lenda tem conservado a lembrança e contado as punições eram os Titãs, Sísifo, Flejás, Tântalo, as Danáidas e Ixios. Os Titãs, que haviam se revoltado contra Júpiter, foram enterrados sob o vulcão Etna que os antigos viam como uma das chaminés do inferno devido às suas frequentes erupções; Sísifo, filho de Éolo, tendo criado problemas na Ática por suas ações de banditismo, foi condenado a rolar uma enorme pedra até o cume de uma montanha, e a cada vez a pedra rolava para baixo eternizando sua pena. Flejás. que tinha ateado fogo ao templo de Delfos, era atormentado pelo pesadelo de ser esmagado por uma pedra suspensa sobre a sua cabeça. Tântalo, rei da Frígia, tinha ousado servir na comida dos deuses que foram visitá-lo, os membros de Pelopes, seu filho, e Júpiter quis que fosse devorado eternamente por uma sede ardente e um apetite insaciável. E, para piorar a pena o fez mergulhar numa água fresca e límpida e acima dele uma árvore carregada de gostosa fruta, e quando queria beber a água e comer a fruta as mesmas afastavam-se dele. Os poetas têm aplicado esse suplício aos avaros que amassam riquezas sem tocar nelas. As Danaidas, filhas de Danáus rei de Argos, foram condenadas a encher, nunca parando, uma barrica de água sem fundo por terem matado os seus cinquenta maridos. O deus dos infernos era odiado na terra. Tinha poucos templos e não lhe eram oferecidos sacrifícios, e seus sacerdotes eram coroados com as folhas do cipreste, a árvore dos túmulos. É representado em um trono de ébano, cercado pelas Fúrias e pelas Parcas. Leva um cetro numa das mãos e as chaves que fecham a porta da moradia infernal na outra.
Os Campos Elíseos, separados do Tártaro pelo rio Lete, eram uma vivenda deliciosa: os poetas imaginavam que todas as espécies de prazeres estavam neles reunidos. Ali reinava uma eterna primavera, ali soprava um ar puro e sereno, uma doce claridade iluminava essa encantadora região, e as sombras, as almas, que a habitavam passeavam entre bosques de mirto e de rosas. Essas almas tinham bebido da água do rio Lete, tendo então esquecido todas as penas que tinham suportado na terra, abandonando-se às atividades que mais gostavam. Os filósofos falavam da verdade e da contemplação, os poetas recitavam versos harmoniosos, os guerreiros exercitavam-se na luta e nisso todos achavam sua satisfação.