Henrique Vieira Filho
Henrique Vieira Filho

Henrique Vieira Filho é artista plástico, agente cultural (SNIIC: AG-207516), produtor cultural no Ponto de Cultura “ReArte” (Certificado Ministério da Cultura), Museólogo no Museu Rearte (reconhecido pelo IBRAM/Ministério da Cultura), gestor Pontos MIS (Museu da Imagem e do Som/SP), diretor de arte (MTE 0058368/SP), produtor audiovisual (ANCINE: 49361), escritor, jornalista (MTE 080467/SP), educador físico (CREF 040237-P/SP), psicanalista, sociólogo (MTE 0002467/SP), historiador, professor de artes visuais, pós-graduado em Psicanálise, em perícia técnica sobre artes e em Biblioteconomia.

Colunas

O Dia em que Dom João VI e o Correio Conspiraram Contra as Minhas Prateleiras

Bibliotecas não são depósitos. Na Ciência da Informação, não basta empilhar o livro num canto e dizer 'seja o que Deus quiser'. [...] Como já profetizava Jorge Luis Borges: 'Sempre imaginei que o Paraíso fosse uma espécie de biblioteca'. Pois bem: no ReArte, o Paraíso acaba de chegar em caixas do correio e tem cheirinho de papel novo

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O Dia em que Dom João VI e o Correio Conspiraram Contra as Minhas Prateleiras
Avalanche de Livros - Ilustração: Henrique Vieira Filho
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Imagine a cena: o ano é 1808, Napoleão Bonaparte está fungando no seu pescoço e você precisa fugir de Portugal às pressas. O que você coloca na mala? Ouro? As joias da coroa? A louça da vovó? Dom João VI, em um raro momento de absoluta genialidade logísticas, resolveu empacotar mais de sessenta mil livros, manuscritos e mapas para cruzar o Atlântico.

Dois anos depois, em 29 de outubro de 1810, o Príncipe Regente assinava o decreto que fundava a Real Biblioteca no Rio de Janeiro. A data virou o nosso Dia Nacional do Livro, embora a população da época tenha esperado até 1814 para colocar as mãos no acervo, porque burocracia real, como se sabe, precisa de quatro anos de maturação antes de permitir que meros mortais folheiem as páginas.

Pois bem. Passados mais de dois séculos, suspeito que o espírito bibliófilo de Dom João VI resolveu baixar de vez aqui em Serra Negra, mais precisamente no Ecossistema Cultural ReArte. O universo não está apenas nos dando sinais; ele está nos atropelando com uma avalanche de papel e tinta.

Faz poucos dias, recebi a visita da Ana Paula, que recém inaugurou sua livraria e editora na cidade e já chegou alimentando o sonho de realizarmos uma Bienal do Livro na nossa região. A ideia casou perfeitamente com os nossos planos para dezembro: reunir os autores locais para bate-papos, autógrafos e saraus, celebrando a revitalização da nossa Biblioteca Sociedade das Artes, ampliada graças a um edital cultural estadual que tivemos o orgulho de vencer.

O problema é que biblioteca não é depósito. Na Ciência da Informação, não basta empilhar o livro num canto e dizer “seja o que Deus quiser”. Existe o ritual sagrado da catalogação, classificação, registro e tombamento, uma sequência metódica de passos burocráticos onde cada obra ganha sua própria “carteira de identidade”. Nós já tínhamos uma fila respeitável de centenas de exemplares aguardando por esse batismo digital.

E foi aí que o correio tocou a campainha. em qualquer aviso prévio, desembarcaram na nossa porta cerca de seiscentos novos livros enviados pelo programa PNLD + Bibliotecas, uma parceria entre o Ministério da Educação, o Ministério da Cultura e o FNDE. Uma surpresa maravilhosa, que vai da literatura para a primeiríssima infância a clássicos para toda a família! Mas, para quem tem a missão de catalogar tudo, a chegada dessas caixas provoca um misto de lágrima de emoção e leve hiperventilação.

Frente a essa montanha de trabalho, decidi adotar a célebre filosofia atribuída a Bill Gates: “Eu sempre escolho uma pessoa preguiçosa para fazer um trabalho difícil, pois ela vai encontrar uma maneira fácil de fazê-lo”.

Assumindo o papel do “preguiçoso” da frase, resolvi colocar meus conhecimentos em inteligência artificial para trabalhar e desenvolver um sistema automatizado que lê os dados dos livros, classifica a obra e insere as informações diretamente no banco de dados da nossa biblioteca. Ou seja: estou trabalhando feito um doido agora para poder ser sumariamente preguiçoso no futuro, quando chegarem as próximas caixas.

Como se não bastasse catalogar a literatura alheia, ainda preciso arrumar tempo para terminar a escrita do meu próprio livro: o Volume II de 101 Crônicas de Serra Negra, reunindo nossas conversas publicadas aqui no Jornal O Serrano.

O fato é que não há como escapar. Quando o universo decide que o livro é o tema da temporada, ele não manda um aviso sutil: manda um caminhão das encomendas. Como já profetizava o mestre argentino Jorge Luis Borges: “Sempre imaginei que o Paraíso fosse uma espécie de biblioteca”.

Pois bem, meu caro leitor: aqui no ReArte, o Paraíso acaba de chegar em caixas de papelão, tem cheirinho de papel novo e já está de portas abertas para você (acompanhe a evolução em www.rearte.com.br). Só não repare na inteligência artificial trabalhando no cantinho!

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