Ibraim Gustavo
Ibraim Gustavo

Jornalista, pós-graduado em Marketing, MBA em Comunicação e Mídia, e MBA em Empreendedorismo e Inovação. Empreendedor, é sócio-fundador da Freestory – A primeira plataforma do Brasil de autodescrição com storytelling, IA e IoT. Com formação em Profissões do Futuro (O Futuro das Coisas) e no Programa de Capacitação da Nova Economia (Startse). É também músico, escritor, roteirista e storyteller.

Esportes

Um negócio que começa antes do primeiro gol

Ligada a Ronaldo Fenômeno, rede de escolas de futebol transforma a força de uma das maiores marcas do esporte em um negócio que fatura R$ 18 milhões por ano

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Um negócio que começa antes do primeiro gol
Ronaldo Academy forma novos talentos do esporte para o mundo | Divulgação
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Poucos jogadores conseguiram transformar a própria história em uma marca tão poderosa quanto Ronaldo Nazário. O menino que saiu de Bento Ribeiro, no Rio de Janeiro, conquistou duas Copas do Mundo, foi eleito três vezes o melhor jogador do planeta pela Fifa e se tornou um dos brasileiros mais reconhecidos internacionalmente. Depois de encerrar a carreira nos campos, Ronaldo assumiu uma posição cada vez mais ativa no mundo dos negócios. Investiu em gestão esportiva, entretenimento, produção de conteúdo, publicidade e serviços financeiros. Também foi controlador do Cruzeiro e do Real Valladolid, da Espanha.

Uma das apostas mais longevas desse portfólio está na formação de crianças e adolescentes. Fundada em 2015, a Ronaldo Academy leva o nome, a história é parte da visão esportiva do Fenômeno para um mercado que ainda recebe pouca atenção dos investidores: o das franquias de escolas de futebol. A rede reúne mais de 6 mil alunos ativos e chegou a 75 contratos comercializados, dos quais mais de 40 já estão em operação. O faturamento mensal alcançou R$ 1,5 milhão, equivalente a R$ 18 milhões por ano. A expectativa é superar os R$ 3 milhões mensais conforme as novas unidades sejam abertas e conquistem mais alunos.

Mais do que uma associação publicitária, a presença de Ronaldo funciona como um ativo central do negócio. Seu nome reduz uma das maiores dificuldades enfrentadas por qualquer nova escola: conquistar a confiança das famílias. Em um setor pulverizado, formado principalmente por projetos independentes, academias locais e escolas ligadas a clubes, a identificação imediata com o Fenômeno ajuda a diferenciar a rede antes mesmo de a bola rolar.

O peso do nome Ronaldo

A Ronaldo Academy ocupa um espaço pouco explorado entre a educação, o esporte e o entretenimento. A escola não foi criada apenas para revelar jogadores profissionais. A proposta é ensinar futebol e, ao mesmo tempo, trabalhar disciplina, convivência, respeito e desenvolvimento pessoal. Os alunos não precisam participar de peneiras para entrar. As turmas recebem crianças com diferentes níveis de habilidade, divididas entre iniciantes, intermediários e avançados. Quem apresenta maior desempenho pode participar de treinamentos de alta performance e ser encaminhado a clubes parceiros. Essa abertura amplia o público da rede. A família não precisa enxergar o filho como um futuro jogador para considerar a matrícula. O futebol passa a ser apresentado como atividade física e parte da formação da criança.

A ligação com Ronaldo reforça essa mensagem. A história do ex-atacante reúne elementos que ultrapassam seus títulos: origem humilde, projeção internacional, lesões graves e retomadas que pareciam improváveis. A empresa procura transformar esse legado em metodologia. O nome do Fenômeno atrai a primeira atenção, mas a permanência dos alunos depende da experiência entregue em cada unidade.

Roberto Joaquim, CEO e sócio da Ronaldo Academy, afirma que o cuidado com essa imagem orienta as decisões da empresa: “A Ronaldo Academy carrega o legado dele”, disse o executivo em entrevista. Ronaldo participa das decisões estratégicas, acompanha os resultados e avalia os números da rede. A operação cotidiana fica sob responsabilidade de Joaquim, que apresenta periodicamente ao ex-jogador os indicadores de faturamento, unidades e expansão.

Um mercado ainda pulverizado

O futebol movimenta cifras bilionárias no Brasil, mas boa parte do dinheiro está concentrada nos clubes profissionais, nas transmissões, nos patrocínios e na negociação de atletas. As escolas de futebol ocupam um universo diferente. Em vez de depender do resultado de partidas ou da revelação de um grande jogador, o negócio é sustentado principalmente pelas mensalidades pagas pelas famílias.

Esse modelo cria uma receita recorrente semelhante à de escolas de idiomas, academias e outras atividades extracurriculares. A diferença é que ele trabalha com o esporte mais popular do país e com uma relação afetiva construída desde a infância. Apesar desse potencial, o segmento ainda é bastante fragmentado. Muitas escolas dependem diretamente do treinador ou do ex-jogador que criou o projeto. Nem sempre há uma metodologia padronizada, processos comerciais, suporte administrativo ou planejamento para abertura de novas unidades.

É justamente nessa lacuna que as franquias encontram espaço. Elas oferecem uma estrutura pronta para o empreendedor, com marca, metodologia, treinamento, sistemas e acompanhamento da operação. No caso da Ronaldo Academy, há ainda uma vantagem difícil de reproduzir: a associação com um dos maiores jogadores da história.

Quanto custa abrir uma unidade

A Ronaldo Academy trabalha com dois modelos principais. No formato mais enxuto, o franqueado utiliza campos já existentes em clubes, condomínios, escolas ou complexos esportivos. O investimento inicial varia entre R$ 120 mil e R$ 150 mil, incluindo a taxa de franquia de R$ 60 mil. O prazo estimado para recuperar o investimento fica entre 18 e 24 meses. Roberto Joaquim relata que algumas unidades alcançaram esse retorno em menos de seis meses, mas ressalta que são resultados específicos e não representam uma garantia aos novos investidores. O valor médio das mensalidades varia entre R$ 250 e R$ 300. Em bairros com custos imobiliários maiores, pode chegar a R$ 400. Uma escola com 250 alunos, por exemplo, pode gerar receita bruta mensal entre R$ 62,5 mil e R$ 75 mil. Esse valor ainda precisa cobrir despesas como aluguel do campo, salários, impostos, royalties, equipamentos e divulgação.

O segundo formato, chamado de flagship, exige a construção de um complexo esportivo. Nesse caso, o investimento pode variar de R$ 2 milhões a R$ 6 milhões, conforme o terreno, a cidade e o número de campos. As unidades maiores podem ampliar a receita com aluguel de quadras, estacionamento, lanchonete, campeonatos, festas infantis e eventos. A escola deixa de funcionar apenas durante as aulas e passa a operar como um centro de esporte e convivência.

De franqueado a CEO

Roberto Joaquim conhece as duas pontas do negócio. Antes de assumir a empresa, ele comprou uma franquia da Ronaldo Academy na Freguesia do Ó, na zona norte de São Paulo. A decisão foi tomada em 2020, durante a pandemia, quando ainda não havia previsão segura para a retomada das atividades presenciais. A unidade começou com 98 crianças e alcançou 250 alunos em apenas dois meses. O resultado levou Joaquim a abrir uma segunda operação, em Campinas-SP, e o aproximou dos controladores da marca. Em maio de 2022, ele se tornou sócio e CEO da Ronaldo Academy. Naquele momento, a rede tinha 15 unidades.

Atualmente, Joaquim possui nove escolas como franqueado e prepara a abertura da décima. Essa experiência permite que ele teste decisões em suas próprias unidades antes de apresentá-las ao restante da rede.

Franquias avançam no Brasil

A expansão ocorre em um período favorável ao franchising. O setor faturou R$ 301,7 bilhões em 2025, crescimento de 10,5% em relação ao ano anterior, segundo a Associação Brasileira de Franchising, a ABF. O Brasil encerrou o período com mais de 202 mil operações e aproximadamente 1,76 milhão de empregos diretos. As franquias já estão presentes em 3.828 municípios.

Nesse universo, escolas esportivas ainda aparecem com menos frequência do que redes de alimentação, beleza, moda ou educação tradicional. Mas a combinação de mensalidade recorrente, baixo estoque, demanda por atividades infantis e possibilidade de receitas complementares começa a chamar atenção. A força de uma marca conhecida pode acelerar esse processo. No caso da Ronaldo Academy, o investidor não compra apenas um modelo operacional. Ele passa a trabalhar com uma história reconhecida por pais, filhos e diferentes gerações de torcedores.

O próximo mercado de Ronaldo

A Ronaldo Academy já mantém uma unidade em Tampa, na Flórida (EUA), desde 2018. Agora, negocia novas operações em Miami, Orlando, Austin e Fort Lauderdale. A Copa do Mundo de 2026 ajudou a ampliar o contato com potenciais investidores nos Estados Unidos. Roberto Joaquim permaneceu 43 dias no país durante o torneio e participou das ações da Casa Rede Ronaldo, em Miami. A expansão internacional coloca à prova a força comercial do Fenômeno fora do Brasil. Ao mesmo tempo, encontra um mercado aquecido pela Copa, pelo crescimento do futebol nos Estados Unidos e pela proximidade dos Jogos Olímpicos de Los Angeles.

Ronaldo construiu a primeira parte de sua história marcando gols. Agora, transforma o legado deixado dentro de campo em negócios capazes de atravessar fronteiras. Na Ronaldo Academy, essa relação começa antes do primeiro gol. Começa quando uma família escolhe o futebol como parte da formação de uma criança.

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