Ibraim Gustavo
Ibraim Gustavo

Jornalista, pós-graduado em Marketing, MBA em Comunicação e Mídia, e MBA em Empreendedorismo e Inovação. Empreendedor, é sócio-fundador da Freestory – A primeira plataforma do Brasil de autodescrição com storytelling, IA e IoT. Com formação em Profissões do Futuro (O Futuro das Coisas) e no Programa de Capacitação da Nova Economia (Startse). É também músico, escritor, roteirista e storyteller.

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Entre Linhas e Vozes - Episódio 16: 19º Concurso da Qualidade do Café Especial do Circuito das Águas premia os melhores do ano na região

Essa é a primeira edição do evento após a conquista da Indicação Geográfica aos cafés regionais

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Entre Linhas e Vozes - Episódio 16: 19º Concurso da Qualidade do Café Especial do Circuito das Águas premia os melhores do ano na região
Produtores vencedores apresentaram cafés especiais campeões de qualidade e de doçura pronunciada | Ibraim Gustavo
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Choveu e esfriou; saiu o sol e esquentou; choveu novamente, mas desta vez, não esfriou, pelo contrário, aqueceu. Choveu um pouco mais, geou, saiu novamente o sol. O Brasil sempre foi reconhecido como um país onde as quatro estações eram bem delimitadas. Com as mudanças climáticas, isso já não é mais uma verdade absoluta, e todos nós, sem exceção, enfrentamos as quatro estações num único dia, todas juntas, sem medida e sem aviso prévio.

Enquanto o calor extremo, o frio excessivo e a chuva fora de época atrapalham os planos de quem quer viajar, tomar a condução para ir trabalhar, ou para programar as férias, há um grupo de pessoas que sofre mais com as intempéries do tempo. O agricultor, o homem e a mulher do campo são vítimas das incertezas que a natureza impõe - especialmente nos últimos anos. Isso afeta, sensivelmente, a cafeicultura, um dos principais ativos do Circuito das Águas Paulista, e uma das forças históricas da região. 

Não obstante as dificuldades impostas, se tem uma coisa da qual o cafeicultor não abre mão é da sua fé. Aliada à sua sabedoria, inteligência emocional, habilidade profissional e a seus dotes no campo, a crença de que tudo vai dar certo mantém a chama da esperança vibrando dentro dos corações e, com a mesma força que faz tremer as mãos, faz também estremecer o chão da vida, onde as sementes da convicção são lançadas, acreditando que o futuro é fecundo, promissor e muito doce. Tão doce que vira prêmio. 

Produtores de cafés especiais da região participaram, na última quarta-feira, 14 de outubro, do 19º Concurso da Qualidade do Café do Circuito das Águas Paulista - safra 2026, realizado na Fazenda Sant’Anna, em Amparo. Foram premiados em primeiro, segundo e terceiro lugares cafés nas categorias Natural, Cereja Descascado (CD), Fermentado, Microlote e Orgânico, além da premiação especial reservada ao terreirista de café, concedido ao produtor mais bem pontuado na edição do concurso.

O evento reuniu produtores, baristas, Q-graders, imprensa especializada, gestores públicos, patrocinadores e parceiros, além de coffee lovers que desejam conhecer mais o universo dos cafés especiais, especialmente os grãos produzidos na região que recentemente conquistaram o selo de Indicação Geográfica (IG), salientando a qualidade superior e a doçura acentuada da produção regional, conforme aponta o relatório de resultados da primeira fase do concurso, elaborado pelo Tabernáculo do Café, que dispõe que “as notas positivas mais marcadas mostram o perfil que a região levou para a mesa: fragrância adocicada, de caramelo e mel, frutas, acidez cítrica e balanço equilibrado”, declara o documento oficial.

O o 19º Concurso da Qualidade do Café do Circuito das Águas Paulista contou com a prova de três provadores profissionais e especializados, e utilizou o protocolo de prova da Specialty Coffee Association (SCA) para café arábica, na ficha de dez atributos: “sete deles medem qualidade, e recebem nota de 6 a 10; os outros três (uniformidade, xícara limpa e doçura) são avaliados xícara por xícara, com dois pontos para cada uma delas sem problema, até 10 pontos. A nota final é a soma dos dez atributos, descontados os defeitos”, comunica o relatório da SCA.

Roseli Vasco de Toledo, coordenadora do Sindicato Rural de Amparo, comentou que o evento contou com cafés de excelente qualidade: “Foram amostras que impressionaram a todos, a despeito das adversidades que os produtores enfrentaram com o clima e com o tempo. Foi neste ano que tivemos, inclusive, a maior nota de todas as edições do concurso”.

Dificuldades no percurso são sinônimo de sucesso quando o resultado final chega. E assim como todo empreendimento bem-sucedido, o concurso regional também apresentou dificuldades para ser realizado, desde o cumprimento das datas para o registro de amostras por parte dos produtores, como para, em plena quarta-feira, organizar a vinda de compradores que participaram do leilão. Ainda assim, o resultado positivo, visto pela presença de aproximadamente 150 pessoas no hotel Sant’Anna, faz com que Diego Silva (O Amante do Café), barista de Amparo e co-organizador do evento, finalize seu dia com a sensação de dever cumprido: “Trouxemos alguns profissionais para fazerem cupping, além de compradores convidados que podem fazer ofertas a preços justos para os cafés produzidos na região". 

Para Sílvia Fonte, produtora rural premiada na categoria orgânico com o Café dos Leais e presidente da ACECAP (Associação dos Produtores de Cafés Especiais do Circuito das Águas Paulista), ver o crescimento do pequeno cafeicultor é resultado de muito empenho do próprio produtor, em parceria com a associação: “Este ano foi surpreendente porque os primeiros lugares foram para pequenos produtores, que estão trabalhando e se desenvolvendo. Como presidente da ACECAP, fico muito feliz, porque nosso trabalho é justamente este: fazer com que o pequeno descubra o seu potencial e tenha café de alta qualidade”. Segundo ela, o concurso coroa um ano especial: “Passamos muitos anos em busca da IG, e agora, com esse reconhecimento oficial, muitas portas se abrirão para a produção regional”.

Qualidade na xícara e potência econômica

Para muita gente, apesar de sagrado, o momento do café é só mais um ato na rotina corrida da lida diária da vida. Basta passar o cafezinho no coador com água quente, e voilà!, tem-se a bebida que chega perfumada à boca e toca o coração. Todavia, enquanto para a maioria de nós basta ir até o supermercado ou dar meia dúzia de cliques para que o café chegue fresquinho à mesa, o trabalho no cafezal é sofrido, suado e indispensável para a sobrevivência de centenas de famílias e milhares de pessoas no Circuito das Águas Paulista. Sendo assim, é essencial reconhecer todo esse esforço não somente por meio de concursos de qualidade, como o regional, mas principalmente fortalecendo diariamente as cadeias locais de produção, adquirindo, provando e divulgando os cafés do Circuito.

E para auxiliar nessa tarefa, Caroline Nais, diretora regional de Campinas da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico de São Paulo, colocou-se à disposição: “Esta é uma região que sempre nos surpreende, e não apenas com os cafés. Temos aqui cogumelo, queijo, mel e vinho, e a boa notícia para o futuro próximo é a iminente projeção da Rota do Vinho, nos mesmos moldes das Rotas do Café do Estado de São Paulo, da qual a região já faz parte. E agora com as IGs tanto do café quanto da cachaça, facilita o nosso trabalho de desenvolvimento das Cadeias Produtivas Locais (CPL), do Programa SP Produz. É uma grande oportunidade de fomento para toda a cadeia regional”, afirma.

O discurso do potencial de vendas, do empreendedorismo e do crescimento econômico para as famílias produtoras é reforçado por Nilcio Freitas, gerente regional do Sebrae de Campinas-SP: “O Sebrae está sempre muito presente, ao lado do cafeicultor. E hoje nós nos emocionamos também, pois conhecemos as lutas que ele passa, especialmente em um ano atípico como este, com geadas, chuvas fortes, entre outras intempéries. O que vimos aqui foram pontuações altas e cafés de grande qualidade. E um detalhe importante: no concurso estadual de 2025, os cafés da região já foram protagonistas e, pelo que vimos aqui hoje, este ano não será diferente”.

Além da produção rural, que sustenta inúmeras famílias da região, o café também é fonte de renda indireta, com o fortalecimento do Turismo Rural, que abre novas possibilidades de empreendimento para os municípios, como diz Bruno Tardelli, diretor administrativo do Consórcio Intermunicipal Para o Desenvolvimento do Polo Turístico do Circuito das Águas Paulista (CICAP): “Não se trata de café, apenas, mas sim, de fortalecer a essência de quem se dedica à terra e faz com que a xícara de café seja uma experiência inesquecível. Ninguém faz nada sozinho, é a união, o esforço de diversas mãos, especialmente neste vasto histórico do café na nossa região, unido à água e ao trabalho de muitos anos na cafeicultura regional”.

Os finalistas

Antes do início da cerimônia de premiação, o Sindicato Rural preparou um momento de cupping, com os cafés finalistas na mesa de prova para que os produtores vendessem os cafés premiados durante o primeiro leilão do concurso. Ali, o Q-grader e um dos organizadores do evento, K.J. Yeung destacou o trabalho dos produtores para a obtenção de boas notas neste ano: “Sabemos que os cafeicultores passaram por inúmeros problemas, com muita chuva, principalmente. Mas frente a todo este cenário, tivemos surpresas muito positivas, e aqui na mesa é possível conhecer sensoriais muito interessantes”, defendeu.

Acompanhando o relator, o barista e provador Danilo Fávero, de Socorro, também se diz surpreso pela qualidade dos cafés na mesa: “Existem aqui no leilão seis amostras de café, naturais, fermentados e microlotes, dois de cada, e um melhor que o outro. Houve, em 2026, um salto de qualidade gigantesco em relação aos cafés do ano passado”.

Para Vinícius Gandolphi, da Casa Gandolphi de Cafés Especiais, o concurso é uma grande vitrine de nível nacional: “Estamos aqui prestigiando os cafés da região que, assim como o nosso, também participaram do concurso, que é fundamental para mostrar a qualidade da produção para os moradores da região, bem como para levar nossos cafés para o conhecimento de todo o país”.

A bebida mais famosa do Brasil não é naturalmente brasileira, mas foi aqui que ela encontrou o seu verdadeiro lar. Podemos dizer que para além do território brasileiro, já que, vinda do Arizona, nos Estados Unidos, a barista Beta Benjamin também aproveitou para conhecer os cafés premiados da safra 2026: “Estou muito agradecida por poder participar e provar alguns dos melhores cafés do país onde nasci. Do norte ao sul do Brasil, por onde passei provando café, posso afirma com toda a certeza que, nos últimos três anos, o café do Circuito das Águas Paulista tem me impressionado bastante com o sabor e com a qualidade na xícara”, testemunhou. 

Neste ano, participaram 47 amostras de 33 produtores de seis municípios diferentes da região nas cinco categorias. A variedade Arara foi a que teve o maior número de inscrições (18), seguida do Catuaí (13) e Obatã (5). Bourbon Amarelo, Tupi, IPR e Mundo Novo também foram analisados. A cidade de Serra Negra foi a que mais enviou amostras (27), seguida por Amparo (8), Monte Alegre do Sul (5), Socorro (4), Pedreira (1) e a participação especial do município de Morungaba, localizado na divisa com Amparo, que enviou uma amostra.

Os finalistas da edição de 2026 do evento foram:

Natural  

1º - João Pedro Carra (Arara - 85,92)

2º - Roberto Broto Marchi (Arara - 85,75)

3º - Giovanni José Olivetto Ferrari (Arara - 84,25)

3º - Rosana Marchi (Arara - 84,25)


Fermentado  

1º - Roberto Broto Marchi  (Obatã - 85,54)

2º - Marcia Poli Bichara (Arara - 85,25)

3º - Gabriel Penteado (Catuaí 2SL - 84,58)


Cereja Descascado (CD)  

1º - Dalcio Guidetti (Arara - 83,92)

2º - Marcia Poli Bichara (Tupi - 83,50)

3º - Luiz Bovi (Catuaí amarelo - 83,42


Orgânico  

1º - Edvarde e Sílvia Fonte (Catuaí vermelho - 83,67)

Microlote  

1º - Douglas Henrique Alves (Catuaí amarelo - 86,25)

2º - Mario Marchi (Arara - 85,25)

3º - Inês Regina Avona (Catuaí vermelho - 83,75)

Terreirista: Douglas Henrique Alves

Primeiro lugar no café fermentado, Roberto Marchi, do Café Nonno Marchi, fala da alegria em levar o prêmio para casa mais uma vez: “É um trabalho árduo, muitas vezes você se empenha e o resultado não vem, mas nesse ano, apesar das dificuldades com o clima, deu tudo certo. É uma enorme satisfação receber este prêmio”.

Douglas Alves, vencedor na categoria Microlote e terreirista do ano, agradece pelo reconhecimento: “Preciso agradecer a Deus, estou até tremendo aqui (risos). Nossa família sempre gostou muito de café, e com o passar dos anos, aumentamos nossa propriedade e a produção nela, trabalhando para melhorar a qualidade cada vez mais. Todo ano lutamos muito para chegar entre os finalistas, o que não vinha acontecendo e agora, no nosso primeiro ano no pódio, já alcançamos o primeiro lugar, é motivo de muita gratidão a Deus”, comentou emocionado.

O evento foi criado pelo Sindicato Rural de Amparo há 19 anos, e é realizado em parceria com a Federação das Associações Rurais do Estado de São Paulo (FAESP) e com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR), e conta com apoio da Associação dos Produtores de Cafés Especiais do Circuito das Águas Paulista (ACECAP) e do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

Você pode ouvir essa história na íntegra, com os depoimentos dos participantes deste episódio, além de conhecer os próximos da série Entre Linhas e Vozes, no canal da Freestory no Spotify, clicando aqui. 

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