118 anos de compromisso com a informação
Henrique Vieira Filho

Henrique Vieira Filho é artista plástico, agente cultural (SNIIC: AG-207516), produtor cultural no Ponto de Cultura “ReArte” (Certificado Ministério da Cultura), Museólogo no Museu Rearte (reconhecido pelo IBRAM/Ministério da Cultura), gestor Pontos MIS (Museu da Imagem e do Som/SP), diretor de arte (MTE 0058368/SP), produtor audiovisual (ANCINE: 49361), escritor, jornalista (MTE 080467/SP), educador físico (CREF 040237-P/SP), psicanalista, sociólogo (MTE 0002467/SP), historiador, professor de artes visuais, pós-graduado em Psicanálise, em perícia técnica sobre artes e em Biblioteconomia.

O Molde de Novembro (ou: A Arte de Não Rachar)

A crônica aborda o esgotamento e a ansiedade típicos de novembro, utilizando a metáfora do barro e os totens de cerâmica de Marilena Griesinger nos jardins do Museu ReArte para refletir sobre a capacidade humana de resistir às pressões do cotidiano. Conectando antropologia, sociologia e o humor sobre os "boletos" do fim de ano, o texto apresenta a arte como um refúgio necessário para manter a essência sem "rachar". Ao final, convida o leitor a vivenciar a programação cultural de novembro no Ecossistema ReArte, que conta com Cine ReArte, a exposição Ecos da Mente, oficina de direitos autorais e clubes de leitura

Compartilhe:
Google Adicione O Serrano como fonte preferencial no Google
O Molde de Novembro (ou: A Arte de Não Rachar)
Totens de cerâmica artística de Marilena Griesinger - Ilustração: Henrique Vieira Filho
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Novembro é aquele mês em que o ano está acabando, mas a lista de tarefas continua com a extensão de um testamento. Lembramos os mortos, aproveitamos os feriados, refletimos sobre a Consciência Negra e tentamos descobrir onde foram parar os outros dez meses. Somos ansiedade ambulante, com a bateria social em 3%.

A explicação mais terrena: somos feitos de barro.

Nos jardins do Museu ReArte, a instalação artísticas com os totens de cerâmica de Marilena Griesinger me fizeram pensar: talvez não precisemos de outro aplicativo para organizar a vida, mas de algo que nos ajude a não perder a forma.

Claude Lévi-Strauss, antropólogo francês que estudou os símbolos das culturas, dizia que os animais associados aos totens eram “bons para pensar”: ajudavam a organizar ideias e relações. Émile Durkheim, sociólogo que pesquisou como símbolos e crenças mantêm as sociedades unidas, via o totem como emblema coletivo. Em bom português: um lembrete de que fazemos parte de algo maior que nossa bagunça.

Nossas reuniões de fim de ano talvez revelassem um novo totem nacional: o boleto. Não serve para comer, é péssimo para pensar e, mesmo assim, manda no comportamento coletivo.

A cerâmica, depois de moldada e levada ao fogo, pode atravessar séculos. Já o ser humano, diante de um “precisamos conversar” enviado às 23h47, racha antes de abrir o celular. Para ganhar forma, é preciso atravessar o calor. A vida adulta também, mas sem garantia de sair do forno em formato de vaso.

A arte pega algo confuso e lhe dá forma. Um quadro não paga a conta de luz, mas devolve a capacidade de olhar o mundo sem pensar no próximo compromisso.

Com o tema “O Que Nos Desperta”, o Ecossistema Cultural ReArte transforma novembro em oficina de restauração da alma. Nas quartas, o Cine ReArte vai do surrealismo de Um Cão Andaluz, de Luis Buñuel e Salvador Dalí, ao suspense de Alfred Hitchcock em Quando Fala o Coração. Depois, É Proibido Fumar cutuca nossos hábitos, enquanto Um Broto Legal, com Celly Campello, lembra que às vezes a melhor resposta é dançar. Os filmes dialogam com Ecos da Mente, exposição em que Fabiana aproxima minhas inquietações artísticas desse universo de imagens e sonhos.

No sábado, dia 7, a advogada e produtora cultural Ingrid Morais conduz a oficina “Luz, Câmera, Ação... e Proteção!”, sobre roteiro e direitos autorais. Descobrir que alguém registrou sua ideia no próprio nome é suspense para o qual nem Hitchcock preparou a gente.

Às segundas, o Clube de Cultura Pop reúne fãs de desenho, animes e jogos. Os clubes de leitura Além de um Livrinho, para crianças, e Além de um Livro, para adultos, provam que uma página aberta pode virar conversa, descoberta e discussão sobre aquele personagem que dá vontade de sacudir pelos ombros.

Os arqueólogos do futuro encontrarão celulares e carregadores incompatíveis, mas, para entender quem fomos, terão de procurar também pinturas, livros, cerâmicas, fotografias e histórias.

Fica o convite: passeie pelos jardins do Museu ReArte, observe os totens de Marilena e venha conversar sobre cinema, quadrinhos ou algo que não termine com “vou encaminhar para o setor responsável”.

Novembro nos aperta no molde; dezembro virá com o maçarico ligado. Se somos feitos de barro, que sejamos cerâmica bem pensada: resistente ao fogo, cheia de histórias e imperfeições. A arte talvez não impeça o mundo de entrar em kaos, mas pode nos ensinar a sorrir enquanto tentamos dar forma a ele.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE