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Nestor Leme é um historiador dedicado à preservação da história de Serra Negra. Além de ser o proprietário de um valioso acervo online, repleto de informações e fotografias históricas da cidade, ele também desempenha um papel crucial como colaborador no livro 'Capelas Rurais de Serra Negra – História e Fé'.
A língua oficial falada em nosso país é o português, mas poderia ter sido o tupi-guarani, língua falada pelos primeiros habitantes destas terras e que quase desapareceu, porque os colonizadores proibiram que ela fosse falada. Mesmo assim, a língua dos índios faz parte da nossa cultura, porque as árvores nativas são todas nessa língua, por exemplo: peroba, jequitibá, arroeira, ariribá, cabreúva. Também são em tupi-guarani os nomes dos animais de nossa fauna, tais como paca, capivara, caititu, sagui, e assim por diante.
Também temos muitas cidades com nomes em tupi aqui na nossa região: Itapira, Jaguariúna, Mogi Mirim, todas na língua nativa, e até Serra Negra era para ser Itiruna. Falamos e escrevemos em português, porém o Brasil é um país estranho em seu linguajar, porque apanhamos na escola para escrevermos e falarmos em português e, no entanto, a maioria dos brasileiros, mesmo sem entender o que fala ou escreve, é metida a saber inglês. Você passa pelas vitrines das lojas e lá está: open, sale, delivery, closed, como se estivéssemos numa rua de Nova Iorque.
O português, na verdade, é uma língua complicada. Acho que em nenhuma das línguas faladas no mundo acontece o que acontece com o português. Temos como exemplo a palavra “pena”: como um estrangeiro vai entender que pena pode ser pena de galinha, pena de dó, pena de escrever, assim como pode ser a pena imposta por um magistrado a um condenado? Imaginem como isso é difícil para quem quer entender o que falamos, pois na língua falada de onde ele veio não existem essas coisas.
No conjunto formado de porta e batente, para porta falamos “a porta”, como se porta fosse do feminino, e para o batente falamos “o batente”, como se este fosse masculino. Aí vem um alemão e, como ele não entende essas coisas da nossa língua, coloca os dois no masculino e fala “o batente” e “o porta”, e nós achamos engraçado ele falar “o porta”.
Na verdade, o português é uma língua complicada até para nós, brasileiros. É só lembrar que, nos vestibulares, a maioria das reprovações dos alunos acontece na redação. Nos quatro anos que estudei no Lourenço, sabia um pouco de história, geografia e mais ou menos de matemática, porém, nas aulas de português, vivia levando bronca das professoras. E não era só comigo que isso acontecia, mas com a maioria dos alunos, pois poucos sabiam escrever corretamente o que falavam ou ouviam nos ditados.
Trabalhei em muitos serviços onde escrever não era necessário. Também não gostava de escrever cartas, nem as listas de compras pedidas pela Alice, e assim foi, até que entrei nessa de escrever para os jornais. No início, como não tinha computador, era tudo manuscrito. Devo confessar que, muitas vezes, precisei recorrer ao dicionário para saber como eram escritas algumas palavras, e quantas vezes precisei descartar o escrito por causa de erros em português e começar tudo novamente.
E assim é: o povão sabe de tudo, mas quando você lê o que eles escrevem nas respostas ou nos comentários das postagens do Facebook, ou nas mensagens do WhatsApp, você pensa que a maioria deles fugiu da escola.
E, enquanto estava escrevendo este artigo, lembrei-me de uma passagem: estávamos numa aula de português com a severa professora Dona Ana Pinto, e nós, alunos, tínhamos de responder terminações em “ão” e “oa”, do masculino para o feminino. Um aluno começou e disse: leitão – leitoa; outro, patrão – patroa; mais um, leão – leoa. E assim foi até chegar no Cidão do Abílio, já com uns 15 anos e ainda no segundo ano de estudo. Este pensou e soltou esta: pão – broa.
De imediato, a professora brava lhe falou:
— E quem lhe ensinou que broa é o feminino de pão?
No que o Cidão respondeu:
— Ué, dona, pensei que fosse.

