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Henrique Vieira Filho é artista plástico, agente cultural (SNIIC: AG-207516), produtor cultural no Ponto de Cultura “ReArte” (Certificado Ministério da Cultura), Museólogo no Museu Rearte (reconhecido pelo IBRAM/Ministério da Cultura), gestor Pontos MIS (Museu da Imagem e do Som/SP), diretor de arte (MTE 0058368/SP), produtor audiovisual (ANCINE: 49361), escritor, jornalista (MTE 080467/SP), educador físico (CREF 040237-P/SP), psicanalista, sociólogo (MTE 0002467/SP), historiador, professor de artes visuais, pós-graduado em Psicanálise, em perícia técnica sobre artes e em Biblioteconomia.
Se você é do tipo que só lembra de datas importantes quando a rede social te avisa do aniversário de um primo distante, deixe-me lhe apresentar o maravilhoso mundo das efemérides. Elas funcionam, basicamente, como os "aniversários das causas". Em vez de nos cobrarem bolo ou presentes, elas surgem anualmente para puxar a nossa orelha e nos lembrar daquilo que fizemos — ou deixamos de fazer — pela vida.
No calendário das causas de julho, temos o Dia do Amigo, o Dia do Futebol e até o indispensável Dia Mundial do Emoji. Mas a data que realmente me faz coçar os miolos é o dia 17: o Dia de Proteção às Florestas, popularmente batizado como o Dia do Curupira.
Para quem não faltou às aulas de folclore, o Curupira é o segurança de balada mais implacável da nossa biodiversidade. Baixinho, com cabelos vermelhos como fogo e dentes verdes, ele vigia as matas e pune sem dó quem caça fêmeas ou derruba árvores desnecessariamente. Mas, como somos brasileiros, logo demos um jeito de aplicar a nossa especialidade nacional na floresta: o lendário “jeitinho” para garantir o trânsito livre.
Antigamente, os povos originários deixavam flechas e penas coloridas na entrada da mata para garantir a simpatia do guardião. Com a colonização, a imigração e a miscigenação, o "por fora" ganhou novos ares e subiu de teor alcoólico: passamos a subornar o Curupira com cachaça e fumo de rolo. É o clássico "jeitinho brasileiro" operando em nível metafísico.
O que a psicanálise do nosso mestre Carl Gustav Jung explica — e que Freud talvez batesse cabeça para entender — é que essa necessidade de personificar e aplacar o medo da floresta não é exclusividade nossa.
Graças ao "Inconsciente Coletivo", as mesmas estruturas arquetípicas cruzam oceanos. Prova disso é que o nosso Curupira tem um irmão gêmeo idêntico vivendo na Sibéria: o Leshy, o senhor absoluto das florestas eslavas.
O paralelo entre as duas criaturas é um deleite para a imaginação!
O nosso moleque de pés invertidos corre em velocidade absurda e deixa pegadas ao contrário para desorientar caçadores. O Leshy russo prefere a ilusão de escala: ele fica da altura de uma folha de grama ou mais alto que a maior das árvores em um piscar de olhos. O Curupira imita gritos de socorro e assobios para te perder na mata; o Leshy imita a voz dos seus próprios parentes para te arrastar para o fundo da floresta.
Até na hora de quebrar o feitiço o contraste é fabuloso. Para escapar do Curupira brasileiro, você precisa distraí-lo fazendo nós complexos em cipós ou novelos de linha — o que apela para a curiosidade infantil dele. Já para despistar o Leshy russo, a regra é puramente cômica: você deve vestir todas as suas roupas do avesso e calçar os sapatos nos pés trocados. Imagine o desespero do caçador correndo no gelo da Sibéria de calça ao avesso e bota trocada.
No fundo, ambos os mitos cumprem a mesmíssima função social e ecológica: criar uma barreira psicológica de respeito e medo para garantir que os seres humanos não explorem a natureza além do estritamente necessário para sobreviver.
O problema é que o nosso estoque de cachaça e fumo para “apaziguar”o Curupira está chegando perigosamente ao fim, e a nossa floresta também!
Se continuarmos passando a boiada e destruindo as matas achando que tudo se resolve com um agrado de beira de estrada, o jeitinho brasileiro vai falhar.
E se o Curupira resolver fazer um sindicato global de encantados com o Leshy russo, seremos caçados por entidades de pés invertidos e casacos do avesso!
É melhor começarmos a preservar de verdade, porque contra um levante de seres encantados revoltados, não vai ter garrafa de aguardente que dê conta do recado…



