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Henrique Vieira Filho é artista plástico, agente cultural (SNIIC: AG-207516), produtor cultural no Ponto de Cultura “ReArte” (Certificado Ministério da Cultura), Museólogo no Museu Rearte (reconhecido pelo IBRAM/Ministério da Cultura), gestor Pontos MIS (Museu da Imagem e do Som/SP), diretor de arte (MTE 0058368/SP), produtor audiovisual (ANCINE: 49361), escritor, jornalista (MTE 080467/SP), educador físico (CREF 040237-P/SP), psicanalista, sociólogo (MTE 0002467/SP), historiador, professor de artes visuais, pós-graduado em Psicanálise, em perícia técnica sobre artes e em Biblioteconomia.
A arte me levou para o mundo todo. Tive o privilégio de conhecer as igrejas mais famosas da Europa, incluindo a grandiosa Catedral de Notre Dame (bem antes do trágico incêndio) e muitas das mais de 400 igrejas que desafiam as águas de Veneza.
Mas, se alguém me perguntar qual delas eu mais admiro, minha resposta é direta: a singela Igreja de São Benedito, aqui na nossa estância de Serra Negra.
O motivo dessa admiração não está no luxo ou no ouro europeu, mas no trabalho genial de Cid de Abreu, o nosso eterno Cid Serra Negra.
Para entender o valor desse patrimônio que enriquece o turismo da nossa cidade, precisamos voltar no tempo. A Irmandade de São Benedito foi fundada em Serra Negra no ano de 1866 por um grupo de 50 pessoas, composto por escravizados, libertos e cidadãos livres. Poucos anos depois, em 1873, a primeira capela dedicada ao santo já estava de pé, localizada no topo de um morro perto da antiga cadeia pública.
Com o progresso do município e a valorização da região central devido à cafeicultura, a prefeitura propôs, em 1910, a desapropriação da antiga estrutura. Foi nesse momento que começou a construção do templo atual. A comunidade e os membros da irmandade trabalharam incansavelmente durante décadas para erguer o edifício.
Somente nos anos 1970 é que a igreja ganhou a identidade artística que hoje encanta os visitantes. Uma comissão de moradores, conhecida como a "Equipe de Ouro", organizou uma grande reforma interna que renovou o piso, os bancos e os altares. O ponto alto dessa transformação foi o convite feito a Cid Serra Negra para pintar voluntariamente o teto e as paredes do santuário.
Cid assumiu essa imensa tarefa em plena vigência do regime militar. Em um período de tanta repressão e patrulhamento, a própria existência de Cid (um homem homossexual) já era um ato de coragem silenciosa. Mas, ele foi além e usou sua pintura para romper preconceitos. Em vez de aplicar os padrões tradicionais das divindades europeias, que sempre impuseram anjos loiros de olhos claros e cupidos como querubins, Cid resolveu "abrasileirar" o céu.
Quem entra na Igreja de São Benedito hoje se depara com uma abóboda azul intensa, salpicada de estrelas douradas, onde flutuam harmoniosamente anjos e arcanjos negros e asiáticos. E, a verdadeira e bendita ousadia de Cid está no teto: a figura do Saci-Pererê, pintada com asas! Há também um querubim-curumim, ou seja, como uma criança indígena. Com seu estilo naif (primitivista), Cid provou que o folclore e a nossa pluralidade cultural também têm lugar garantido no espaço sagrado.
Essa riqueza estética deixa claro que não é preciso ser religioso para apreciar o turismo de visitação a templos históricos. O turismo cultural voltado para igrejas é uma força consolidada no mundo inteiro. Monumentos históricos como a Sagrada Família, em Barcelona, ou as basílicas do Vaticano atraem milhões de pessoas todos os anos unicamente por sua arquitetura e valor artístico.
No Brasil, o turismo que envolve patrimônios históricos e religiosos atrai mais de 15 milhões de viagens anuais, segundo dados do Ministério do Turismo, consolidando-se como um motor econômico vital.
A nossa Igreja de São Benedito tem um potencial gigantesco para se tornar um dos principais cartões-postais culturais do interior paulista. Eu mesmo já tive a oportunidade de conduzir vários artistas da capital que vieram fazer residência aqui no Museu ReArte, e todos ficaram absolutamente maravilhados e impressionados com a grandiosidade e a diversidade das pinturas de Cid.
No entanto, para que esse tesouro seja plenamente aproveitado pelo turismo, precisamos de visitas guiadas com profissionais preparados, capacitados para apontar cada detalhe técnico, histórico e social escondido naquelas paredes e tetos.
Pensando nisso, como museólogo, deixo uma sugestão prática para a nossa cidade: poderíamos criar um projeto para treinar e capacitar os jovens guardas-mirins locais para atuarem como os guias turísticos oficiais da igreja
. Eu mesmo me coloco à disposição para dar esse treinamento de forma voluntária.
Ensinar esses jovens a interpretar e orgulhar-se dos anjos negros, das faces asiáticas e do saci alado de Cid Serra Negra é manter viva a nossa história.
Vamos estruturar o turismo da Igreja de São Benedito, pois o céu que Cid pintou foi feito para abraçar o mundo inteiro!
Assista a seguir o curta-metragem sobre Cid Serra Negra:



