Henrique Vieira Filho
Henrique Vieira Filho

Henrique Vieira Filho é artista plástico, agente cultural (SNIIC: AG-207516), produtor cultural no Ponto de Cultura “ReArte” (Certificado Ministério da Cultura), Museólogo no Museu Rearte (reconhecido pelo IBRAM/Ministério da Cultura), gestor Pontos MIS (Museu da Imagem e do Som/SP), diretor de arte (MTE 0058368/SP), produtor audiovisual (ANCINE: 49361), escritor, jornalista (MTE 080467/SP), educador físico (CREF 040237-P/SP), psicanalista, sociólogo (MTE 0002467/SP), historiador, professor de artes visuais, pós-graduado em Psicanálise, em perícia técnica sobre artes e em Biblioteconomia.

Colunas

São Aldir Blanc e o Milagre do Artista Equilibrista

Henrique Vieira Filho aborda, com fina ironia e bom humor, a abertura dos editais da Lei Aldir Blanc em Serra Negra. Fazendo um paralelo entre o calendário litúrgico, a burocracia estatal e a figura de Aldir Blanc como "santo padroeiro" dos artistas. #HenriqueVieiraFilho #LeiAldirBlanc #SerraNegra #CulturaÉInvestimento #BêbadoEEquilibrista #EditaisCulturais #ArteEPolis #CircuitoDasÁguas #SantoEfrém #PoliticasCulturais

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São Aldir Blanc e o Milagre do Artista Equilibrista
O Padroeiro da Cultura - Ilustração: Henrique Vieira Filho

Na mitologia greco-romana, havia divindades para absolutamente tudo. O catolicismo, com sua sabedoria milenar, herdou essa praticidade e garantiu que a humanidade nunca ficasse desamparada nos momentos de sufoco. 

Se a contabilidade aperta, a gente apela para aquela rima infalível de cabeceira: “São Onofre, São Onofre, traga o dinheiro para o cofre!”. Se a engrenagem burocrática trava de vez, a prece vai direto para Santo Expedito, o protetor das causas urgentes, rezando para que o bendito processo seja finalmente expedido.

Até o audiovisual já ganhou o seu guardião canônico em minhas crônicas anteriores: o icônico São Paulo Gustavo. Mas e o restante da classe artística? Aqueles que não manejam câmeras, mas sim pincéis, palcos, partituras, canetas e coreografias? Pois bem, meus amigos, as preces foram ouvidas. Oficialmente, a prefeitura de Serra Negra abriu as inscrições para concorrer aos Editais Culturais da Lei Aldir Blanc. E é exatamente aqui que a teologia e a burocracia celebram o seu casamento mais complexo.

Evidentemente, não há nenhum "Aldir Blanc" oficialmente catalogado no martirológio do Vaticano (embora existam variantes germânicas como Santo Aldrico, o que já é meio caminho andado). Mas na devoção popular do meio artístico, Aldir Blanc Mendes — médico, psiquiatra e um dos maiores letristas da história da nossa MPB — foi canonizado há muito tempo como o legítimo santo padroeiro da cultura nacional! 

E como todo bom santo, para receber a sua graça, o fiel precisa passar por uma provação de fogo. No caso dos reles mortais da arte, o purgatório atende pelo nome de Edital Cultural.

Ganhar um edital, convenhamos, é um exercício de fé pura. O mecanismo opera quase num salve-se quem puder: os fazedores de cultura locais precisam competir entre si, apresentar projetos mirabolantes, vencer os próprios colegas de profissão e, no fim da linha, torcer para serem contemplados com uma verba que, sejamos honestos, costuma ser quase simbólica. 

É aí que o artista encarna a maior profecia de seu padroeiro: ele vira o autêntico bêbado equilibrista.

O sujeito precisa fazer verdadeiros malabarismos circenses, equilibrando-se na corda bamba que separa as exigentes planilhas de custos da pura qualidade estética. É a física quântica da sobrevivência: fazer o dinheiro render para pagar cachês de cantores, dançarinos, pintores, sonorização, recepção e gráfica! 

O que a frieza dos gabinetes custa a entender, no entanto, é que o dinheiro investido em cultura opera uma matemática milagrosa. Estudos econômicos sérios já cansaram de provar que cada mísero R$ 1,00 aplicado no setor não é gasto, é fermento: ele se multiplica exponencialmente na outra ponta, retornando para a sociedade na forma de contratações, consumo no comércio local, hotelaria e turismo. É a economia da alegria gerando receita real.

Para melhorar o misticismo da coisa, os editais de Serra Negra foram publicados justamente em um dia 8 de junho, data de Santo Efrém, conhecido como "A Harpa do Espírito Santo" por defender a dignidade humana através da poesia e da música. Coincidência? Prefiro acreditar em providência divina. É a poesia abençoando a papelada!

Quando a burocracia finalmente cede e o recurso pinga na conta, a mágica acontece. A verba é convertida em ensaios, tintas, suor e aplausos — e o melhor de tudo: com acesso inteiramente gratuito para o povo. 

Como boa parte da classe não tem onde cair morta, nós aqui np Ponto de Cultura, Museu, Pontos MIS, Biblioteca e Residência Artística (ufa!) ReArte, continuamos firmes na missão. O dinheiro pode não trazer felicidade — e a falta dele certamente atrasa o cronograma —, mas a arte nos liberta.Portanto, viva Santo Efrém, e, acima de tudo, valei-nos, “Santo Aldir Blanc”! Que o equilíbrio não nos falte e que a lona do circo continue de pé.

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