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Henrique Vieira Filho é artista plástico, agente cultural (SNIIC: AG-207516), produtor cultural no Ponto de Cultura “ReArte” (Certificado Ministério da Cultura), Museólogo no Museu Rearte (reconhecido pelo IBRAM/Ministério da Cultura), gestor Pontos MIS (Museu da Imagem e do Som/SP), diretor de arte (MTE 0058368/SP), produtor audiovisual (ANCINE: 49361), escritor, jornalista (MTE 080467/SP), educador físico (CREF 040237-P/SP), psicanalista, sociólogo (MTE 0002467/SP), historiador, professor de artes visuais, pós-graduado em Psicanálise, em perícia técnica sobre artes e em Biblioteconomia.
Dizem que as montanhas de Serra Negra têm o poder de desacelerar o tempo, filtrando as urgências do mundo através das suas águas minerais. Quando me mudei para cá, confesso que vinha imbuído desse espírito: estava pronto para "pendurar as chuteiras" da gestão cultural e me dedicar exclusivamente à solidão bendita das minhas telas e ao silêncio dos meus livros. A ideia era trocar o burburinho de São Paulo pelo murmúrio das fontes. Mas, como diz o ditado, a gente faz planos e a vida — ou a arte — ri deles.
Veio a pandemia, e com ela, o isolamento que paradoxalmente nos conectou. O que era para ser uma aposentadoria virou o embrião da ReArte em solo serrano. Começamos com as "releituras artísticas" transmitidas via internet, unindo dança, teatro e literatura quando os palcos físicos estavam mudos. A semente, plantada, desde 2016, ainda nos tempos da Sociedade das Artes em São Paulo, encontrou na terra roxa do Circuito das Águas um inesperado solo fértil.
Neste domingo, 22 de março de 2026, farão exatos dois anos que inauguramos a nossa sede própria — aquela "casa de aço e paredes de vidro e com muitas plantas" — e percebo que ela é o reflexo perfeito do que nos tornamos. O vidro não está ali apenas pela estética; ele é o símbolo de uma transparência institucional que transbordou. O que nasceu como um desejo de pintar em paz transformou-se no que hoje maturamos como o Ecossistema Cultural ReArte.
E que organismo vivo ele se tornou! Às vezes, perco o fôlego ao listar nossas frentes de batalha, mas o orgulho recupera o ar. Somos um Ponto de Cultura reconhecido pelo Ministério da Cultura; somos o Museu ReArte, com o selo de autenticidade do IBRAM; somos a Biblioteca Sociedade Das Artes, integrada ao sistema estadual (SisEB). Nossa casa de vidro virou uma Residência Artística, onde hospedamos e orientamos talentos de todo o país, e o nosso Polo de Difusão Audiovisual agora dialoga ainda mais forte como Pontos MIS - uma parceria com o Museu da Imagem e do Som.
Olho para trás e vejo a trilha: dezenas de livros publicados, centenas de crônicas, curadorias incessantes e um sem-número de exposições. A ReArte não é mais apenas uma "releitura"; é um porto seguro para a preservação do patrimônio e para a difusão da arte contemporânea.
Não por mera coincidência e, sim, por providência, celebramos o aniversário da sede no Dia Mundial da Água. Para nós, que habitamos o coração do Circuito das Águas, a metáfora é irresistível. A cultura, tal como a água, é um fluxo contínuo. Ela precisa de leito (nossa sede), de pureza (nossa ética) e de movimento para não estagnar.
No entanto, este domingo de celebração traz uma proposta inusitada. Em vez de uma vernissage monumental ou de uma maratona de cinema, decidi exercer o meu mais sagrado direito: farei um "Inventário do Ócio”: a tarefa exaustiva de contar quantos pensamentos passam sem virar novos projetos culturais. Se a ReArte é um ecossistema, hoje serei o elemento em repouso. Meu presente para as paredes de vidro e para os meus próprios ouvidos (sempre atentos aos decibéis da vida) será o silêncio.
Vou celebrar o sucesso desse "Ecossistema" contemplando a fluidez da vida en um sofá confortável, ao lado da família (que inclui o Dalekão, o cão de suporte emocional). Afinal, até os rios mais impetuosos buscam um remanso para refletir o céu. Parabéns à ReArte, nosso Museu, Ponto de Cultura, Biblioteca, Residência Artística, Cinema (Pontos MIS) e muitos etcéteras a mais, pelos dois anos de público pleno, prêmios conquistados e corações saciados.

