Henrique Vieira Filho
Henrique Vieira Filho

Henrique Vieira Filho é artista plástico, agente cultural (SNIIC: AG-207516), produtor cultural no Ponto de Cultura “ReArte” (Certificado Ministério da Cultura), Museólogo no Museu Rearte (reconhecido pelo IBRAM/Ministério da Cultura), gestor Pontos MIS (Museu da Imagem e do Som/SP), diretor de arte (MTE 0058368/SP), produtor audiovisual (ANCINE: 49361), escritor, jornalista (MTE 080467/SP), educador físico (CREF 040237-P/SP), psicanalista, sociólogo (MTE 0002467/SP), historiador, professor de artes visuais, pós-graduado em Psicanálise, em perícia técnica sobre artes e em Biblioteconomia.

Colunas

Nem Tudo Termina em Pizza

Em comemoração ao Dia da Pizza, Henrique Vieira Filho resgata suas memórias como dono de uma inovadora pizzaria na Mooca nos anos 90. Entre fornos ecológicos, calotes e um cliente misterioso que destruiu o local após um bate-boca, a crônica revela com muito humor a origem histórica da famosa expressão "tudo termina em pizza", nascida de uma tumultuada reunião da diretoria do Palmeiras em 1965. #HenriqueVieiraFilho #DiaDaPizza #TudoTerminaEmPizza #HistóriasDaMooca #Palmeiras #Anos90 #CrônicaPaulista #HumorEHistória #Empreendedorismo #MemóriasDeBalcão

Compartilhe:
Nem Tudo Termina em Pizza
“O Causo da Pizza” - Ilustração: Henrique Vieira Filho
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Muito provavelmente você está lendo este artigo com uma fatia na mão ou já planejando o sabor do jantar, aproveitando o embalo do Dia da Pizza

A data é celebrada graças a um badalado concurso realizado em São Paulo, em 1985 e também porque foi em 10 de julho de 1889, que a rainha Margherita de Savoia provou a iguaria que Raffaele Esposito montou em um disco com manjericão, muçarela e tomate, reproduzindo as cores da bandeira italiana! Nascia ali, com as bênçãos da monarquia, a Pizza Margherita.

Corta a cena para a São Paulo dos anos 90. Como bem diz a minha esposa, eu sempre sustentei a fama de ter "mil empregos". Foi nesse impulso que me vi dono de uma pizzaria na Mooca. Como o espaço era minúsculo e não comportava uma cozinha isolada, decidi subverter a lógica da época: taquei um vidro transparente separando o forno do público. Hoje isso é padrão de arquitetura cult, mas nos anos 90 era um "aquário" revolucionário que atraía curiosos de longe. 

Para completar as invenções, aposentei os fornos gigantes que precisavam queimar uma floresta inteira para funcionar. Desenhei um forno compacto, alimentado por sobras de madeiras nobres descartadas por marcenarias, que assava uma redonda perfeita em menos de dois minutos. E a entrega? Ecológica, feita por bicicletas, décadas antes do delivery por aplicativo virar febre.

Acontece que, no meu rodízio pessoal de profissões, o ramo gráfico começou a bombar. Cada hora dedicada às impressões rendia o dobro do tempo gasto sovando massa. Decidi vender o negócio. Na pressa de fechar o trato, cometi o erro amador de aceitar o pagamento em duas parcelas. Obviamente, a segunda parte virou fumaça. Sem paciência para ladainhas burocráticas, adotei o melhor estilo cinematográfico da máfia italiana: fui lá e retomei o estabelecimento na marra. E, logo em seguida, revendi para novos compradores.

Por falar em máfia, a pizzaria tinha um cliente VIP. O sujeito era a própria definição de fidalguia: supereducado, jurava que a nossa era a melhor pizza de São Paulo e distribuía gorjetas para os entregadores ciclistas. A vizinhança jurava de pés juntos que ele era um criminoso perigosíssimo, e eu, jamais acreditei. 

Pois bem. Dias após a troca de comando da pizzaria, esse ilustre cliente voltou, provou a pizza dos novos donos e reclamou que a qualidade tinha despencado. O novo pizzaiolo resolveu bater boca com o homem. No dia seguinte, quando abriram as portas para o expediente, o cenário era de guerra: absolutamente tudo, do chão ao teto, havia sido quebrado e reduzido a pó.

É... parece que aquele atendimento ao cliente definitivamente não "terminou em pizza".

E já que a expressão veio à tona, não posso fechar o balcão sem contar o "causo" real que deu origem a esse clássico do vocabulário nacional. Na década de 1960, a diretoria do Palmeiras vivia um racha interno digno de novela mexicana. Para tentar costurar a paz, os cartolas se trancaram na pizzaria Don Pepe, no Brás. Foram 14 longas horas de discussões acaloradas, gritos, dedos na cara e acusações mútuas. Na exaustão da madrugada, a fome venceu o orgulho. Para selar uma trégua pacífica, eles deixaram o futebol de lado e traçaram nada menos que 18 pizzas gigantes.

No dia seguinte, eis manchete no jornal: "Palmeiras comemora a paz e tudo termina em pizza". A frase colou tanto no gosto popular que migrou rapidamente dos gramados para os palanques da política nacional.

A moral da história? Na Mooca ou no Brás, a pizza une os povos, acalma os ânimos e perdoa os pecados. Só não queira discutir com o cliente da mesa ao lado: vai que ele entende mais de "negócios de família" do que de futebol!

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE