Depois de cumprir com brilhantismo seu ofício deste lado do planeta, o sol estava começando o seu ocaso e, finalizando mais uma jornada, trocava de turno com a lua, que comandaria a noite até um novo amanhecer. Diferentemente das ruas, que veem carros amontoados e buzinas trocadas a todo instante, num frenesi que aumenta com o desejo de chegar após um dia exaustivo, nos estúdios da Rádio Serra Negra, o silêncio imperava, como em qualquer outro local do tipo. Silêncio, esse, que foi quebrado apenas com a alegre chegada de um homem baixinho e extremamente sorridente: “Eu agradeço pelo convite. É muito importante para nós falarmos sobre nosso trabalho, a fim de que as pessoas conheçam o que fazemos na Guarda Mirim de Serra Negra”.
Vito Sapuppo, professor e presidente voluntário da Amparo Social de Promoção Humana chegou à rádio após o convite que recebeu para falar sobre a atuação da entidade que presidia à época. Mais conhecida como Guarda Mirim, a instituição é uma organização da sociedade civil que, desde 1989, atua no desenvolvimento de crianças, adolescentes e jovens nos mais variados âmbitos: escolar, profissional, vínculos familiares e sociais, entre outros. E ainda hoje, sob a batuta de Marlene Borges, a Guarda segue os caminhos de educação e trabalho social a que se propôs desde a sua gênese.
“O Vito foi uma pessoa muito especial para toda a comunidade, para todos nós, na verdade. Um homem íntegro, honesto, inteligentíssimo e muito perseverante no que se proponha a fazer. Tive a honra de ser, por muitos anos, vice-presidente da Guarda Mirim ao seu lado, até que, após sua partida, assumi a presidência da instituição, dando continuidade ao seu trabalho. Mas a pessoa do Vito Sapuppo é especial, querido por todos, ajudou muita gente, sempre. Mesmo fora de Serra Negra, em Santo André, onde morou antes de vir para cá, trabalhando como professor por muitos anos até sua aposentadoria. E aqui em nossa cidade, sua vida foi trabalhar muito por todos e pela comunidade. Sendo assim, só devemos agradecer a ele por tudo o que fez por nós, pela cidade e pela nossa Guarda Mirim”, afirmou Marlene Borges, atual presidente da entidade.
Deus Pai; Deus Filho; Deus Espírito Santo. A teologia da Trindade é a principal doutrina estabelecida pelo Credo de Niceia, a mais famosa profissão de fé cristã do primeiro milênio, formulada durante o Concílio de Niceia, que ocorreu no ano de 325 d.C., e confirmada em Constantinopla (381 d.C.). Lutando contra a chamada heresia do arianismo, o dogma confirmou a divindade de Jesus Cristo, afirmando que o Filho é consubstancial ao Pai. E foi fiado nessa fé que Basílio de Cesareia - ou Basílio Magno - percorreu a vida até chegar ao bispado de Cesareia, na Capadócia.
Atualmente, o santo da Igreja Católica cede seu nome à uma colossal estrutura de pedras erigida no século 18, finalizada em 1764, substituindo a antiga construção, de duzentos anos antes. O imponente frontispício é ornado por três grandes portas de madeira, encimadas por uma janela quadriculada que se projeta no horizonte. No topo do prédio, uma pequena cruz faz o passante lembrar que ali está uma igreja: a Chiesa Madre San Basilio, ou, Igreja Matriz de São Basílio, localizada na Piazza della Repubblica, em Regalbuto, comuna italiana da região da Sicília. Para quem olha de frente a edificação, o lado esquerdo é elevado ao alto através de uma grande torre com um relógio e mais uma cruz no cimo.
Este piedoso lugar presenteou o mundo com o nascimento de um homem que, com fé na humanidade, entregou seu labor para a transformação das vidas que cruzaram seu caminho. Nascido em Regalbuto, Vito Sapuppo chegou ao Brasil em 18 de maio de 1950, fixando residência na região do ABC Paulista. Formou-se em História, Estudos Sociais e Pedagogia, passando a lecionar a partir do final dos anos 1960, alcançando os cargos de vice-diretor, diretor escolar e coordenador pedagógico em escolas das redes estadual e privada. Em 2003, mudou-se para Serra Negra, e logo iniciou seu trabalho como professor voluntário no Amparo Social de Promoção Humana, assumindo a presidência da entidade dois anos após sua chegada ao município, sempre de forma voluntária. Foi sob sua direção que a instituição foi transformada em Guarda Mirim de Serra Negra, alcançando dezenas de famílias e centenas de crianças ao longo dos anos em que esteve à frente da organização social, com reforço escolar, atividades culturais, passeios e preparação para o mercado de trabalho.
“O professor Vito foi um exemplo marcante para todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo. Um ser humano ético, educado, sensível, justo e coerente, que fazia questão de transmitir valores morais e éticos em tudo o que ensinava. Seu maior legado foi a prática constante do bem e o auxílio ao próximo”, afirma Elisabete Cordeiro, ex-secretária do Amparo Social de Promoção Humana - Guarda Mirim, que trabalhou ao lado do professor na instituição. “Tudo o que aprendi com ele tem um valor imensurável e levarei comigo por toda a vida. Sou profundamente grata por ter tido a honra de trabalhar ao seu lado”, finalizou Elisabete.
Bete, como era carinhosamente chamada pelo professor, não é a única que trabalhou com Vito Sapuppo e teve essa impressão. Mariane Menegatti engrossa o coro daqueles que viram o amor empregado pelo professor no seu dia a dia: “A minha experiência de trabalhar com o professor Vito foi a melhor possível, porque se trata de uma das pessoas mais humanas que eu conheço. Ele transformou a Guarda Mirim num lugar em que poderíamos sentir como a nossa casa, onde todos eram ouvidos e acolhidos. E isso era possível ser visto quando alguém tinha alguma necessidade, e todos se juntavam para ajudar, e isso partia dele, que tinha um coração enorme. Ali, fazíamos parte de uma família, dividíamos nossas questões e compartilhávamos nossos problemas. Eu mesma passei por várias situações e foi ele quem me ajudou em inúmeras oportunidades, me acolhendo e oferecendo alguma ajuda num momento de fragilidade. Essa pessoa tão especial, levarei sempre no meu coração”, declara emocionada.
Para além daqueles que trabalharam ao seu lado, Vito Sapuppo também afetou - em seu sentido mais literal que é o de tocar com afeto - quem indiretamente atuou em parceria com ele, como é o caso de Daniele Pachioni, secretária de Assistência e Desenvolvimento Social do município de Serra Negra: "Quando entrei para trabalhar na Secretaria de Assistência Social, Vito Sapuppo foi um verdadeiro professor, sempre muito pronto, atento e cuidadoso, daqueles anjos que a gente encontra pelo caminho, extremamente dedicado e preocupado com o bem-estar das crianças e dos adolescentes. Através da Guarda Mirim, nunca mediu esforços para que ele pudesse mostrar para aqueles jovens um mundo novo e cheio de possibilidades, diferente da realidade que, muitas vezes, viviam, provando que eles poderiam ter novas perspectivas”. Ela comenta ainda que Sapuppo contribuiu para o andamento da Assistência Social, impactando a vida de muitos jovens: “Para mim, ele é sinônimo, acima de tudo, de resiliência e de amor ao que ele se propôs a fazer, porque era visível o quanto ele gostava e o quanto se empenhava em suas atividades. Ele deixa, além de muita saudade, um legado para todos os que tiveram o privilégio de conviver e de aprender com ele, e também a certeza de que um trabalho feito com carinho e com dedicação não tem como dar errado, podendo, somente, render bons frutos”.
Conversa vai, conversa vem, e com quase uma hora de entrevista, o ouvinte pode conhecer um pouco da história desse homem que afirmou, com todas as palavras: “Tive uma doença muito triste, e eu prometi a Deus que se Ele me desse a oportunidade de receber a cura, passaria a atuar de maneira voluntária para ajudar a quem mais precisa. Ele me permitiu viver, fui curado e, então, entreguei parte da minha vida a esse trabalho que ajuda não só a quem precisa, mas também a mim, me fazendo uma pessoa melhor a cada novo dia”. A esse ofício, ele se entregou de corpo e alma.
Mas além da entrevista, a conversa que se seguiu sobre a vida, sobre planos, projetos e ideais foi o que mais agradou, e assim o seria para qualquer outro que se empenhasse em entrevistá-lo. Conversas outras que se estenderam ao longo de anos, ainda que em proporções infinitamente inferiores ao que este escritor estimaria ter.
9,3 mil km e um Atlântico separam Serra Negra de Regalbuto. São cerca de 15 horas de voo para quem deseja conhecer a belíssima Sicília. Nascido na Itália, renascido no Brasil, a Fortuna, sempre caprichosa em relação ao destino, escolheu por Vito Sapuppo que seu local de nascença fosse o Velho Continente, mas que sua adoção fosse feita para além-mar, em terras brasileiras com traços italianos, onde seria adotado como filho.
A atuação do professor Vito transcende a presidência da Guarda Mirim, acumulando as funções de presidente do Conselho Municipal de Assistência Social e do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, além de membro do Conselho da Saúde do Município e membro do Rotary Clube de Serra Negra. E para muito além do seu trabalho voluntário, como fruto da sua própria vida, o professor Vito recebeu inúmeras homenagens, como do Rotary Club de Serra Negra e do Rotary Internacional, e a maior de todas as honras concedidas a alguém que veio de tão longe para estabelecer suas raízes neste solo: o Título Honorífico de Cidadão Serrano, recebido pela Câmara Municipal no dia 18 de novembro de 2010, que representam os mais de cinquenta anos de dedicação às causas da educação, da cidadania e da democracia, por todos os locais por onde passou e, em especial, em Serra Negra, onde lançou as sementes que fecundaram de maneira ímpar e inconfundível, gerando frutos possíveis de serem observados na rotina da cidade, com o trabalho de jovens - e hoje adultos também - que passaram pela Guarda Mirim e tiveram suas vidas impactadas pelo professor.
Ex-aluno da Guarda Mirim, Danilo Camargo afirma que Sapuppo representa um exemplo a ser seguido, e que sua presença permanece viva em todos aqueles com quem teve contato pelo bem que realizou e pelas oportunidades que ajudou a construir: “À frente da Guarda Mirim, dedicou-se com seriedade, sensibilidade e profundo senso de responsabilidade à formação de jovens, enxergando em cada aluno um potencial a ser desenvolvido. E fui, nesta jornada, um dos alcançados por esse trabalho: por meio da instituição e da avaliação profissional do professor, tive minha primeira oportunidade profissional, que abriu caminho para minha trajetória na atividade registral, em minha formação em Direito e, hoje, para o exercício da advocacia”. Camargo complementa registrando sua gratidão, ao dizer que “seu legado segue presente na vida de todos aqueles que, de alguma forma, tiveram seus caminhos transformados por sua dedicação”.
Aluno de vida de seu próprio pai, Marcelo Sapuppo fala do legado do pai para a sociedade e, em especial, para sua família: “Meu pai sempre nos ensinou a nos preocuparmos com os outros. Estamos falando de uma pessoa que, muitas vezes, abriu mão de seu interesse pessoal, dedicando seu tempo e seu carinho às pessoas que mais necessitavam, somando mais de 50 anos dedicados à educação, trabalhando até o final de sua vida. Mesmo no hospital e muito debilitado, ele falava da Guarda Mirim de Serra Negra com carinho e atenção acerca do que acontecia na associação. O que procuramos fazer, enquanto família, é manter vivo esse legado, comemorando os 80 anos de idade que ele completaria neste mês, recordando suas obras, porque é fundamental que aquelas pessoas que foram diferentes nunca sejam esquecidas. As pessoas que estiveram ao lado dele, e que vivenciaram e foram agraciadas com sua presença, não se esquecem jamais, e é justamente isso o que procuramos fazer ao recordar essa memória. E agora mais do que nunca, a fim de que ela continue sempre presente no coração das pessoas que tiveram o prazer de estar próximas do trabalho que meu pai desenvolveu”.
Em 08 de outubro de 2021, Vito Sapuppo desertou desta existência para ascender e constar entre aqueles que deixaram sua marca registrada na vida profissional de inúmeros jovens, e suas digitais no coração de incontáveis serranos.
16 anos depois de sua entrevista na Rádio Serra Negra e do título de honra recebido pelo Legislativo serrano, o professor Vito, uma vez mais, é homenageado, tanto na rádio, quanto pelas páginas impressas e no portal do jornal O Serrano, e também pela própria Casa de Leis, por meio da “‘Moção de Aplausos (in memoriam)’, ao saudoso Professor Vito Sapuppo, em reconhecimento à sua trajetória exemplar e aos inestimáveis serviços prestados à comunidade de Serra Negra”, concedido na última segunda-feira, 11 de maio, em consonante celebração ao aniversário de 80 anos que o professor faria no último sábado (9). De todos nós, serranos e serranas da terra ou adquiridos em amor, filhos da Itália, nossa mais sincera gratidão, professor Vito.
Você pode ler essa história na íntegra, com os depoimentos dos participantes deste episódio, além de ouvir os próximos da série Entre Linhas e Vozes no canal da Freestory no Spotify, clicando aqui.