Henrique Vieira Filho
Henrique Vieira Filho

Henrique Vieira Filho é artista plástico, agente cultural (SNIIC: AG-207516), produtor cultural no Ponto de Cultura “ReArte” (Certificado Ministério da Cultura), Museólogo no Museu Rearte (reconhecido pelo IBRAM/Ministério da Cultura), gestor Pontos MIS (Museu da Imagem e do Som/SP), diretor de arte (MTE 0058368/SP), produtor audiovisual (ANCINE: 49361), escritor, jornalista (MTE 080467/SP), educador físico (CREF 040237-P/SP), psicanalista, sociólogo (MTE 0002467/SP), historiador, professor de artes visuais, pós-graduado em Psicanálise, em perícia técnica sobre artes e em Biblioteconomia.

Colunas

O Tempo em que o Cinema Botava Leão na Calçada (Literalmente)

A crônica celebra a digitalização do Acervo Nestor Leme pelo Museu ReArte, detalhando a história dos manuais de marketing que as distribuidoras enviavam aos cinemas do interior nas décadas de 40 e 50. O texto explora estratégias curiosas de divulgação, como o uso de animais selvagens, encenações de prisões em praça pública e casamentos reais no palco, destacando a importância da preservação dessa memória cinematográfica. #CinemaBrasileiro #MemoriaCinematografica #ReArte #SerraNegra #NestorLeme #MarketingRaiz #HistoriaDoCinema #Cultura #Museologia #Henrique Vieira Filho

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O Tempo em que o Cinema Botava Leão na Calçada (Literalmente)
"Lei da Selva" no marketing do cinema - Ilustração: Henrique Vieira Filho

Recentemente, concluímos a digitalização de um verdadeiro "tesouro de papel": o Acervo de Material de Publicidade Cinematográfica, do querido Nestor Leme, a quem devemos agradecer imensamente por ter guardado esses registros.

Como historiador e curador do Museu ReArte, bem sei que o que tenho em mãos é, na verdade, um roteiro de como a magia do cinema chegava à nossa região nas décadas de 40 e 50

São cerca de 700 páginas que revelam os bastidores de uma era em que o cinema não chegava por satélite, mas por meio de uma logística de guerra e uma criatividade que hoje chamaríamos de audaciosa — ou, para os mais conservadores, de absoluta insanidade!

Para que você, leitor, entenda o valor desse resgate, imagine que naquele tempo, quando um filme saía dos grandes estúdios de Hollywood para ganhar o interior paulista, ele não vinha sozinho. Antes, as distribuidoras enviavam aos donos de cinemas inúmeros panfletos, suplementos em formato de jornal, com estratégias de divulgação.

O objetivo era duplo: primeiro, convencer o empresário local a alugar aquela fita e, segundo, dar a ele as armas para "invadir" a cidade com publicidade. Eram os "Press Books", manuais de marketing de guerrilha que ensinavam como criar situações que atraíssem o público.

Folheando esse material, que agora salvamos do tempo e transformamos em livros digitais, é impossível não sorrir com a ousadia. Se hoje o marketing vive de algoritmos silenciosos, naquela época ele rugia — literalmente. 

Uma das sugestões para promover um filme de aventura era que o dono do cinema organizasse um "pequeno zoológico" na entrada. A ideia era pegar um leão emprestado de algum circo da região e colocá-lo enjaulado bem na calçada, com um cartaz convidando o povo a ver o "Rei da Selva" na tela à noite!

Essa necessidade de chocar o público não conhecia limites. Para os dramas policiais, os manuais sugeriam que um homem fosse vestido de prisioneiro, com algemas e correntes, e desfilasse pelas ruas da cidade sob a vigia de um "guarda" uniformizado, carregando uma placa dizendo que estava "a caminho da perdição", mas que ninguém deveria perder o filme! 

Imagine o susto das famílias saindo da missa ao darem de cara com um detento em plena praça! E, se o sujeito entrasse no cinema, ainda corria o risco de encontrar uma réplica de cadeira elétrica montada no saguão para "preparar o espírito" antes da sessão.

Em filmes de suspense, os manuais recomendavam colocar uma ambulância na porta ou atores vestidos de médicos no corredor, anunciando que estavam ali para socorrer quem desmaiasse de emoção. 

Já para os musicais românticos, a tática era o oposto: oferecia-se o palco do cinema para que noivos se casassem de verdade, com direito a bolo e vestido patrocinados pelo comércio local, transformando a estreia do filme em festa de um matrimônio real.

Muito antes da internet, o cinema já sabia como capturar nossa atenção — fosse com um leão na calçada ou com um prisioneiro na praça!

O link a seguir leva você para as centenas de páginas desse acervo online. Convido você a folhear esse material e descobrir as maravilhas do cinema… e do marketing!.

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