Ibraim Gustavo
Ibraim Gustavo

Jornalista, pós-graduado em Marketing, MBA em Comunicação e Mídia, e MBA em Empreendedorismo e Inovação. Empreendedor, é sócio-fundador da Freestory – A primeira plataforma do Brasil de autodescrição com storytelling, IA e IoT. Com formação em Profissões do Futuro (O Futuro das Coisas) e no Programa de Capacitação da Nova Economia (Startse). É também músico, escritor, roteirista e storyteller.

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Casa di Matera é local de cuidado e acolhimento para pessoas idosas

Unidade residencial inaugurada em Serra Negra une cuidado continuado, equipe multiprofissional e ambiente integrado à natureza

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Casa di Matera é local de cuidado e acolhimento para pessoas idosas
Médico geriatra e de Família e Comunidade, Giuliano Dimarzio é o idealizador e responsável pela Casa di Matera, nova unidade residencial de cuidados de Serra Negra | Ibraim Gustavo Santos
Casa di Matera é local de cuidado e acolhimento para pessoas idosas
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Casa di Matera é local de cuidado e acolhimento para pessoas idosas

- Nós agradecemos toda a atenção.
- Imagina. Nós é que agradecemos a confiança de deixá-la aos nossos cuidados. Nos vemos na quinta-feira, então.
- Até lá.

Apertando as mãos do médico e da atendente, um senhor se levanta da cadeira e oferece o braço a uma outra senhora, essa de mais idade. Ambos estavam ali para visitarem o local e conhecerem as instalações. Quartos amplos e arejados, jardins e ambientes externos floridos, horta, pomar, salão social, refeitório, espaços de convívio e de meditação e cultos ecumênicos, localizado bem abaixo de um pergolado de madeira que cobre poltronas confortáveis para os encontros, além de consultório médico e uma sala de atendimentos de urgência e emergência no próprio local: “Aqui são dois edifícios, sendo 1.100 metros quadrados de área construída, localizada em um bosque de 10 mil metros. Uma parte desta edificação é onde funcionou por muitos anos o Projeto Casa Dia, da prefeitura de Serra Negra-SP, onde hoje nós montamos nossos salão social e refeitório, e onde promovemos atividades coletivas, inclusive ações de fisioterapia, educação física e arteterapia. O empreendimento ainda dispõe de cozinha industrial equipada, lavanderia, horta, jardim, além de uma área de suporte, depósito de material de limpeza, e um elevador que dá acesso ao prédio de cima, onde as pessoas residem. Neste andar de cima, existe uma área de estar, destinada exclusivamente às famílias que vêm visitar os idosos, assegurando mais privacidade, e garantindo um local mais isolado para que juntos possam ter um momento de comunhão. A Casa di Matera ainda possui uma sala de atendimento de urgência e emergência, equipada com desfibrilador, cilindro de oxigênio e monitorização, utilizada para aqueles momentos em que, sabemos, lidaremos com questões mais graves, do ponto de vista de saúde. Ali é onde fazemos a medicação, com estrutura de geladeiras para medicamentos que precisam ser acondicionados. Atualmente, possuímos sete quartos na parte inferior do prédio, que podem receber 14 moradores, e assim que o elevador for instalado, teremos a possibilidade de ampliar o número para 14 apartamentos, somando 28 moradores. Estamos trabalhando para alcançar o número de dez ou doze pessoas para realizar esse novo investimento, e solicitar a liberação para os órgãos competentes, porque, hoje, temos a outorga para recebermos 14 pessoas moradoras. Vale destacar que os quartos são núcleos compartilhados, mas em havendo o desejo da família, eles podem ser privados também e o morador residir e dormir sozinho em um deles. Os quartos que temos à disposição atendem a duas pessoas, sendo um banheiro compartilhado entre elas. Fizemos recentemente uma série de reformas, trocando armários, instalando camas adequadas à funcionalidade da pessoa, podendo ser uma cama box, com proteção lateral, sempre, a fim de evitar quedas, e também camas automáticas e manuais hospitalares, para aqueles idosos que já têm um grau de disfuncionalidade 3, ou seja, completa, um idoso restrito ao leito. Essa pessoa fica numa cama hospitalar para conseguirmos elevar a cabeceira e as pernas e realizarmos os procedimentos de cuidados. Existem casos de idosos que possuem insuficiência cardíaca, por exemplo, e para evitar broncoaspiração e outros problemas, esses recursos dão suporte à equipe, formada por médico, enfermeiros, técnicos de enfermagem, fisioterapeuta, fonoaudióloga, terapeuta ocupacional, educador físico, além de outros profissionais que ainda irão se juntar a nós nessa empreitada”.

Este é Giuliano Dimarzio, médico com especializações em Geriatria e em Medicina de Família e Comunidade, mestre em Saúde Coletiva e doutor em Clínica Médica pela FCM UNICAMP. Com grande orgulho e senso de responsabilidade, atua como professor na Faculdade São Leopoldo Mandic, onde coordena a disciplina de Atenção Primária em Saúde. É também CEO e fundador da Casa di Matera, uma Unidade Residencial de Cuidados, também conhecida como Instituição de Longa Permanência de Idosos (ILPI), inaugurada em dezembro de 2025 em Serra Negra, e que tem como missão ser referência nacional no segmento, tornando-se uma verdadeira comunidade para os seus moradores, oferecendo cuidado continuado, comunicação eficiente e segurança, sempre em parceria com a família. A Casa di Matera é a realização de um sonho que nasce do coração de um médico de família, e a concretude de seu vasto trabalho de muitos anos: “Eu me formei em 2002 pela PUC Campinas, depois fiz residência na UNICAMP, em Medicina de Família e Comunidade, a especialidade que cuida das pessoas, independente do sexo, da faixa etária ou da demanda de doença que ela tem. É a especialidade que cuida da pessoa desde antes do seu nascimento, no pré-natal, numa atenção que se estende até à terminalidade da vida, os últimos instantes. Sempre baseei minha atividade profissional no atendimento a pacientes no consultório e em domicílio, e com uma preferência maior por idosos. E foi por isso que, quando terminei a residência de Medicina de Família e Comunidade, na Unicamp em 2005, estudei especialização em gerontologia. Então, atendo a pacientes desde 2006, atuo também como professor. Lecionei na UNICAMP, entre os anos de 2007 e 2015, onde fiz também meu mestrado em Saúde Coletiva, na área de concentração de Epidemiologia, e posteriormente fiz o doutorado, de 2015 a 2020, no Departamento de Clínica Médica, na área de Ensino em Saúde. Portanto, há quase 20 anos atuo como médico e professor. E eu sempre sonhei em ter o meu próprio espaço de trabalho, baseado na segurança do paciente, com equipe multiprofissional, aliando à minha especialidade, que trata de tudo que é comum, que tem o foco no cuidado integral para com a pessoa, uma atenção sistêmica e longitudinal, portanto, ao longo do tempo e, sobretudo, acessível. Hoje mesmo, logo nas primeiras horas do dia, já conversei com oito pacientes, e são ainda 9 horas da manhã (no horário da entrevista). Meu trabalho é esse: conversar com a família e saber se o pai dormiu bem, se melhorou da diarreia, se a dor abdominal diminuiu, ou então receitar um medicamento, agendar uma consulta, entre outras atividades de acompanhamento. E o fato é que isso muito me agrada. Mas como disse, sempre tive interesse em ter um espaço em que eu pudesse fazer isso ao lado da minha equipe de profissionais, junto a pacientes que hoje têm como demanda a questão do envelhecimento, e isso cada vez mais. Vivemos hoje, como nação, uma transição epidemiológica (mudança de longo prazo nos padrões de morbidade e mortalidade, caracterizada pela substituição de doenças infecciosas/parasitárias por enfermidades crônico-degenerativas, causas externas e envelhecimento populacional - Pedro Reginaldo Prata: ‘A transição epidemiológica no Brasil’). Passamos de um país onde as pessoas morriam mais cedo e, hoje, convivemos muito e mais tempo com pessoas idosas. Cuidar do idoso sempre me agradou, tanto no consultório quanto na casa do próprio idoso, e atendi também em muitas Instituições de Longa Permanência de Idoso, o nome usual para aquilo que nós, profissionais, gostamos de chamar de Unidade Residencial de Cuidados. Sendo assim, eu vim até este local no dia 2 de maio de 2025 para visitar uma paciente, e gostei muito daqui. Me encantei com esse bosque, com o visual, conheci as freiras que atuavam aqui e que estavam encerrando as atividades, e entramos num processo de negociação, até que finalmente acertamos tudo para dar início às atividades de reformas, no mês de julho, solicitamos os laudos técnicos e toda a extensa lista de documentação e exigências para iniciarmos as operações, e cumprimos todas elas, tendo a abertura do espaço desde o dia 12 de dezembro de 2025”. 

O médico empreendedor defende que um local que recebe pessoas idosas para morar deve ser diferenciado, um ambiente acolhedor e de extremo respeito: ”Ninguém sonhou em estar em um lugar assim, em passar os últimos dias, meses ou anos da vida residindo em uma instituição. E é por isso que eu fiz questão de ter o meu próprio empreendimento nesse segmento. Na verdade, ao longo da vida fui tendo insights sobre criar um lugar assim, e já faz 12 anos que esse desejo vem florescendo cada vez mais. Eu visitei inúmeras instituições, tanto no estado de São Paulo quanto em outros locais do país, e diria que, infelizmente, foram poucas as que me encantaram. Eu diria que quase nenhuma delas. Então, quando conheci esse lugar e vislumbrei o que poderia se tornar, realmente isto me trouxe uma perspectiva de fazer algo inovador no sentido de cuidar, não só do ponto de vista assistencial e de convivência, mas do ponto de vista de saúde. A Casa di Matera é uma unidade de saúde, um espaço que pode, sim, ter ações de saúde e procedimentos médicos, pois aqui está o consultório, temos um enfermeiro responsável vinculado ao Coren, e tenho de prestar responsabilidades junto ao Cremesp, que é a autarquia que cuida da parte médica. Portanto, não se trata apenas de um estabelecimento para viver, sendo, também, um estabelecimento de saúde, o que nos dá uma perspectiva de fazer algo realmente inovador”, afirma Giuliano Dimarzio.

“Eu gosto de cuidar dos idosos”

A atenção - e a tensão - que os pais ficam logo nas primeiras horas após o nascimento de uma criança revelam mais que a insegurança que o ser humano, enquanto espécie, tem para com os cuidados com o bebê. Demonstram, muitas vezes em lágrimas, a alegria e a satisfação de segurar nos braços, pela primeira vez, o fruto da vida, agora com rosto, com movimentos e com um choro delicado, melodia para ouvidos e coração. Com o passar dos tempos, a criança vai aprendendo mais sobre si e sobre o mundo à sua volta. Os adultos, aprendem a ser pais. E quase sempre que precisarem, poderão contar com alguém ali, para carregar a criança, dar banho, e dar os famosos pitacos no turbilhão das mudanças naturais da vida de novos pais. Mas o pequenino e indefeso ser evolui, cresce e se desenvolve, cognitiva, intelectual, mental, emocional e espiritualmente.

Com o avançar dos anos, o homem aprende sobre tudo, adquire conhecimento, galga novos patamares na vida, acumula diplomas, soma livros e mais livros já lidos na estante, e tem o passaporte recheado de comprovações de destinos que lhe acrescentaram ainda mais conhecimento e sabedoria. Com o desenrolar da vida aprendemos muito, sobre as mais variadas áreas. Mas é raro encontrar alguém que aprende o essencial: poucos de nós se alfabetizaram para cuidar de pessoas mais velhas, especialmente aquelas que dependem de cuidados extras, os chamamos idosos disfuncionais. Pior que isso, esquecemo-nos de que, se tudo der certo na vida, nós também seremos idosos necessitados de cuidados.

A rotina do século 21 engole o relógio e faz do tempo a sua marionete. É difícil, sim, destacar alguém da família para realizar uma tarefa tão árdua e exaustiva, e repleta de responsabilidades. Essencial para a sociedade, o trabalho invisível não é remunerado, é desvalorizado e historicamente atribuído às mulheres, gerando sobrecarga e desigualdade de gênero. Ouvir alguém dizer “eu gosto de cuidar dos idosos”, é uma sinfonia para os ouvidos, e um alento para a alma: “Há 50 ou 70 anos, a expectativa de vida era 20 anos a menos do que hoje, quando falamos da expectativa de vida de homens no estado de São Paulo de 79, 80 anos, e de 85 anos para mulheres. Ou seja, vivenciamos um envelhecimento populacional. Outro aspecto que mudou é que a possibilidade de cuidar bem também se tornou mais sofisticada, já que antigamente, o conjunto de medicamentos, de dispositivos e de insumos era menor, uma realidade que o próprio desenvolvimento técnico-científico faz com que as pessoas tenham de se preparar melhor para cuidar de uma maneira mais adequada. Outra transformação importante na sociedade tem relação à inserção das mulheres no mercado de trabalho, algo mais recente no Brasil, mas que também foi alterado. A elas era destinado o papel do cuidado com crianças e idosos, aquilo que chamamos de cuidador informal, ou familiar, diferente do cuidador formal, que é o profissional com estudo e capacitação para o ofício, seja um técnico de enfermagem e outros profissionais de saúde que se preparam especificamente para isso. Conforme a pessoa envelhece, a necessidade de mais cuidado e suporte aumenta. E para fazer um paralelo com essa questão do cuidado com as crianças, o que se tem é que geralmente, a criança vem de uma maneira planejada, e de pais jovens. A função de ser pai e mãe é muito mais natural, antropologicamente falando, do que cuidar dos seus pais. Sendo assim, nós estamos atravessando um momento de disrupção, até porque, para muitas pessoas, deixar o idoso - geralmente pai, mãe e avós - em uma unidade residencial de cuidados, é um abandono, quando sabemos que não se trata disso, absolutamente. Pelo contrário, é prover o cuidado adequado para aquela condição do idoso, que muitas vezes já é disfuncional, isso é, alguém que, do ponto de vista funcional, já não pertence mais à população economicamente ativa, gera gastos excessivos, com fraldas, lenços umedecidos, medicamentos e outros insumos, além de cuidados específicos de banhos, cuidados médicos, de fisioterapeuta, fonoaudiólogos, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, educador físico, ou seja, uma gama de necessidades e de recursos disponíveis atualmente e que devem ser equalizados. Então, nessa perspectiva, este aqui é um espaço que vem ao encontro de prover essas necessidades de acordo com aquilo que realmente precisa ser oferecido nessa fase da vida”.

Apesar do raciocínio lógico e técnico, Dimarzio levanta a questão da vida privada de cada ser humano e de cada família para a tomada de decisão sobre como se dará os cuidados para com os idosos da Casa: “Eu penso que o adequado é equilibrar recursos e necessidades a depender da condição de cada família. Se é possível ter uma equipe de enfermagem e demais profissionais de saúde à disposição dentro de casa, com espaço adequado, alimentação, e com as garantias trabalhistas para a equipe, esse, sem dúvida, é o melhor dos mundos. Porém, é  muito difícil encontrar uma família com todas essas possibilidades, especialmente contratando profissionais que realizam os cuidados de enfermagem por 12 horas ou até mesmo por 24 horas por dia, dependendo da elegibilidade da pessoa, por exemplo, no caso de pacientes com sonda, ostomizados, ou que fazem uso de oxigênio, entre outros. A gama de recursos e necessidades que podem acontecer é enorme, e podem dificultar o cuidado em casa. Inclusive, sabemos que existe um tempo de latência entre a família pensar sobre o assunto e de fato decidir por colocar numa unidade residencial de cuidados, porque é um período que a família tem para refletir. O que temos visto é que a sobrecarga do cuidador familiar também adoece demais a essa pessoa”.

O médico comenta como, nesse período de latência, a família e a pessoa idosa se convencem de que o melhor para ela, dentro daquela estrutura familiar, seria ir para uma unidade residencial: “É algo muito pessoal, e que envolve uma questão cultural importante da família. Ainda existe o senso equivocado de abandono, como o ‘eu não quero abandonar meu pai’. O meu pai, mesmo, sempre me falou que ‘um pai cuida de dez filhos, dez filhos não cuidam de um pai’, e essa é uma frase muito comum de se ouvir na sociedade. Contudo, quando olho para o meu próprio futuro, eu não sei se quero ser cuidado pelo meu filho. Hoje, tenho 47 anos, e não quero que o meu filho cuide de mim no futuro. Eu quero que ele continue sendo meu filho quando eu estiver com 85 ou com 90 anos. Enfim, essas são mudanças de paradigmas que estão dadas para o debate social nos dias de hoje”.

Uma maneira inovadora de acolher

Quatro poltronas plásticas brancas Sec Line rodeiam as mesas colocadas do lado de fora do Caffe Italia, um prédio de três andares com fachada cinza ornamentado com pedras nas portas e janelas. Sentado à mesa, o viajante se acomoda enquanto aguarda o café quente que chegará dentro de alguns minutos. Seu olhar paira estático, examinando a estrutura colossal em estilo barroco à sua frente, uma construção com um portal exterior em madeira encimado por uma caveira esculturada e, no topo, uma cruz. A Igreja do Purgatório é a maior edificação da Via Domenico Ridola, em Matera, uma comuna italiana localizada na região da Basilicata, no sul do país, há cerca de 240 quilômetros de Nápoles.

O local é conhecido pelos Sassi di Matera, bairros históricos repleto de moradias antigas escavadas na rocha calcária. Há indícios de que essas residências primitivas, hoje consideradas Patrimônio Mundial da UNESCO, são habitadas desde o período Paleolítico, portanto, há mais de 10 mil anos a.C. Trata-se de um labirinto único de cavernas, igrejas rupestres, ruas e escadarias, transformando o cenário num fascinante destino turístico com hotéis e restaurantes.

Inspirada nessas comunidades de cuidado e proteção, há cerca de 10 mil quilômetros de distância, duas bandeiras ainda dobradas repousavam solenemente sobre a mesa na recepção. As cores verde e branca que colorem ambas, somavam-se às outras: amarela e azul, e vermelha. Brasil e Itália. Do lado de cá do Atlântico, a Casa di Matera afirma se comprometer em “oferecer um espaço seguro e acolhedor, onde cada pessoa idosa seja tratada como única, sem nunca substituir o carinho de sua família”. Um local de acolhida num momento tão sensível da existência; um endereço de repouso e recuperação para quem, trilhando a vida, já escreveu páginas e páginas de sua história. Esse é, de acordo com Giuliano Dimarzio, o principal diferencial da residência em relação a outras instituições semelhantes que, por necessidade do ofício, o médico já passou para visitar pacientes: “Eu sou muito apaixonado pelo que faço, tanto na docência quanto no cuidar. Meu grau de envolvimento ao longo da vida com as minhas tarefas me dá a tranquilidade de que isto que estou fazendo hoje pode ser diferente. Muitas vezes, eu vi locais onde as pessoas moradoras eram pouco estimuladas, e mesmo neste momento de abertura da Casa, ainda com poucos hóspedes, já temos uma equipe grande, atuante e muito profissional. Além disso, existe também uma proposta para que este local seja um espaço de formação para profissionais, em parceria com outra empresa que possuo, além de parcerias com grupos de enfermagem que vão lidar com processos formativos de sonda, de estomias, e outras situações. Aliás, como temos um espaço grande aqui, temos a intenção de, no futuro, trabalhar com pessoas que, inclusive, podem ficar provisoriamente ou até passar o dia, nos mesmos moldes da Casa Dia”. 

O idealizador do projeto fala, com suas próprias palavras, o porquê da escolha do nome: “Eu queria que fosse uma casa, a ideia de residência, e lembrar que não é nem a casa do idoso nem a minha. É, simplesmente, a Casa de Matera, a cidade mais antiga da Europa, da Normandia, e o local de onde veio a família Dimarzio, a qual pertenço. Inclusive, estive lá em 1993, e estou retornando para lá novamente este ano. Um lugar que soma mais de sete mil anos de pessoas vivendo ininterruptamente, e que tem o Sassi, uma rocha em que os antigos habitantes conseguiam fazer escavações, gerando inúmeras cavernas no local. Pratos, copos e outros utensílios são feitos com essa pedra, uma espécie de barro ou argila. Matera é conhecida ainda por ser um local em que os viajantes, os imigrantes, paravam para descansar, para se recuperar e para se restaurar. Então, desde o começo da ideação, ainda quando eu pensava no nome, optei por Casa de Matera. E a intenção, com o passar dos anos, é não ter apenas esta unidade. A meta é ampliar, e ter outras duas unidades, em outros locais do país, e depois, construir a Vila de Matera, uma comunidade residencial para pessoas entre 60 e 70 anos de idade. O propósito é criar uma vila, mesmo, um espaço de co-living. Ainda é apenas um projeto para um futuro modelo de negócio, mas que está nascendo aos poucos com este local, e seguindo para construirmos uma oferta de cuidados para a pessoa idosa num momento da vida que não é simples, ao contrário, é bastante complexo e repleto de desafios, e tentando adequar recursos e necessidades para este público”.

A Casa di Matera possui uma equipe multiprofissional, que possibilita promover bem-estar em todas as áreas: saúde, alimentação, social, cultural e emocional. E não apenas para quem decide residir ali, funcionando também como um suporte especializado em pós-operatórios, reabilitação, agravamento de doenças e cuidados paliativos, com monitoramento, acolhimento e foco na recuperação segura e no conforto da família: “Neste espaço podemos atender também,  por exemplo, um paciente que foi submetido a uma cirurgia de prótese de quadril, ou durante o período de pós-operatório, que exige fisioterapia, uma medicação analgésica mais potente e cuidados diários, e que muitas famílias, por não terem outra alternativa,  levam o idoso para casa, mas não conseguem lidar com aquela situação frágil. Há casos de a pessoa estar imobilizada ou comprometida em suas capacidades físicas e motoras e em se cuidar, sendo necessária a presença de um segundo indivíduo que tem seus afazeres cotidianos, como trabalho, cuidado com os filhos, viagens, entre outros compromissos. Existe uma série de situações que faz com que este local possa atender um conjunto de pessoas e de famílias que se encontrem em momentos semelhantes a esses. Eu tenho, acima de tudo, toda a tranquilidade em afirmar que precisa estar aqui somente quem quer estar e ficar, e não por nenhum outro motivo. Por isso que o atendimento oferecido aqui, o cuidado humanizado, não é um luxo, é um dever que temos e um compromisso que assumimos. Atenção centrada na pessoa, e baseada na segurança. Neste sentido, oferecemos também os mesmos cuidado e respeito para quem desejar ficar apenas por um período, seja para adaptação,  seja para recuperação ou por qualquer outra finalidade, não se restringindo àqueles que irão residir permanentemente. Portanto,  é totalmente viável fazer um contrato temporário,  de 15, 21 ou 30 dias, ou ainda por um período indeterminado de recuperação, muitas vezes com indicação do médico do paciente, que considera mais seguro que durante esse tempo o idoso receba antibiótico, medicações analgésicas e antiinflamatórias por profissionais da saúde, que cuidarão de possíveis feridas e outras demandas específicas. É por isso que firmamos diversas parcerias com especialistas focais, como médicos, ortopedistas e cirurgiões. Por fim,  ainda não é o formato que trabalhamos, mas temos o propósito de transformar este espaço em um hospital de transição, já existente em grandes centros urbanos. Trata-se de um espaço onde a pessoa permanece somente por um período. A Casa di Matera ainda não é um hospital, mas tem essa possibilidade de oferta, conforme esse tipo de cuidado seja necessário e percebido pelo paciente e sua família, o que em casa seria muito difícil de promover, pois seria preciso um arcabouço considerável de dispositivos e insumos que já temos disponíveis aqui. Vale a pena ressaltar que antes da admissão, é feita uma avaliação clínica inicial, que identifica diversos riscos e situações inerentes à realidade dos idosos, principalmente daqueles avançados, acima de 85 anos”.

Da sala de aula, Dimarzio traz para o dia a dia da sua atuação na Casa aspectos imprescindíveis que um líder de equipe precisa ter. A docência transformou o médico em alguém com a capacidade de enxergar por diferentes ângulos, ensinar outros profissionais a partir de novos panoramas e, sobretudo, aprender o mesmo ofício por meio de outros pontos de vista, igualmente funcionais e eficientes: “Acredito que um potencial pessoal que carrego está ligado à liderança. Atualmente atuo como diretor de comunicação e marketing da Sociedade de Medicina e Cirurgia de Campinas, fui empreendedor ao longo de toda a minha vida, e acredito que a docência me traz a capacidade de encantar pelo aprendizado. E é justamente neste momento em que nos encontramos, pois estamos em processo de formação da equipe, com técnicos de enfermagem, cuidadores, nutricionistas, gerência administrativa e outros profissionais que estão trabalhando aqui. Estamos juntos aprendendo as questões e as nuances relacionadas ao cuidado para com as pessoas idosas. Este é, portanto, um tratamento que eu tenho, baseado em processos e metodologias, fazendo duas reuniões de equipe por semana, agregando todo o time. Além disso, fazemos parcerias com instituições de excelência em Ensino Superior da área da saúde, como a Unicamp e a Faculdade São Leopoldo Mandic, onde eu trabalho, e incorporado questões de ensino-aprendizagem para todo o meu pessoal. Haja vista que o meu doutorado foi em ensino, porque para tudo o que nos propusermos a fazer na vida, existe um processo de ensino-aprendizagem inerente. Só de me ouvir falar sobre a Casa di Matera, de alguma maneira já é possível assimilar algum aprendizado, e pode ser que daqui a um ou dois anos, quem está lendo ou nos ouvindo se recorde do que conversamos hoje aqui, e faça a transferência para outras áreas da vida. E algo que aprendi com a professora doutora Maria Inês Fini (ex-presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira - Inep): informação não é conhecimento. Até que ponto ter posse de uma informação gera, em si, conhecimento? Conhecimento é um processo cognitivo, mental e elaborado, não uma somatória de informações. Portanto, aqui na Casa, não é apenas sobre como eu ensino um enfermeiro ou um técnico de enfermagem sobre como fazer o seu ofício, e sim, como eu estou aprendendo com eles também, seja a posicionar um idoso de uma maneira diferente da minha, ou outras situações que podem gerar até mais conforto que a forma como aprendi. É um conjunto de aprendizados que passa por núcleos e saberes próprios e específicos de cada profissão”.

Autonomia e independência

Em pouco mais de uma década, o número de idosos no Brasil cresceu 57,4%, passando de 14.081.477 (7,4% da população), em 2010, para 22.169.101 (10,9% da população), em 2022, segundo o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar de uma ótima notícia em âmbito geral, o aumento na expectativa de vida dos brasileiros traz consigo algumas preocupações, como a questão da qualidade de vida dessas pessoas, bem como a qualidade de morte delas. Por mais sinistro que isso possa soar a um ouvido desacostumado, tocar nesse assunto é deve de todos enquanto seres humanos e cidadãos, assim como de governos que devem criar e manter políticas públicas para o bem envelhecer de todas as pessoas, garantindo que sejam assistidas com atenção no estágio final da vida, especialmente quando tratamos de cuidados paliativos. 

Refletir sobre qualidade de vida passa por inúmeras questões sensíveis, e enfrenta paradigmas e situações arquetípicas inerentes à sociedade. Se no passado uma vida que valia a pena viver se resumia a ter um bom emprego, casar, criar os filhos e se aposentar, hoje os padrões mudaram, e essas verdades, ainda que preciosas para milhões de indivíduos, não podem mais, sozinhas, responder às demandas atuais da existência humana. Saúde mental, espiritualidade, crescimento cultural, experiências de lazer, vida sexual ativa e construção de relacionamentos são desejos e necessidades que fazem parte da vida de pessoas com mais de 60 anos. E para experienciar todas essas situações, duas coisas são fundamentais: autonomia e independência. “É imprescindível saber diferenciar a autonomia e a independência, que são dois conceitos distintos, mas que podem se complementar. A autonomia é a capacidade de pensar e tomar decisões, ou seja, está mais relacionada ao trabalho e ao funcionamento correto do cérebro. Já a independência, é a capacidade de executar o que você pensou, esta mais relacionada às habilidades motoras e musculares. Apenas a título de exemplo na prática diária, é a formação do desejo de tomar um café - e a compreensão dele - sabendo escolher se se quer um espresso ou um método filtrado, sendo decidido pelo indivíduo (autonomia - tomada de decisão), somado à capacidade motora de segurar a xícara, acrescentar o café nela e levá-la à boca sem prejuízos (independência - capacidade de execução). Ao longo do tempo, o idoso vai perdendo essa habilidade e essa capacidade de executar as tarefas diárias mais simples. A autonomia, passando, é a capacidade de pensar, enquanto a independência, é a de executar. Muitos idosos estão com as faculdades mentais plenas, ‘com a cabeça boa’, como se diz popularmente, mas já não conseguem mais andar sozinhos. São pessoas que já não andam, estão restritas à uma cadeira de rodas, o que não as impede de decidir sobre algo, mas que as faz não conseguir executar. Neste sentido, o trabalho é mais do que multidisciplinar: é interprofissional, porque passa pelas pessoas, indo além da disciplina, um ofício voltado para o bem-estar da pessoa, que é, senão, melhorar a sua qualidade de vida e postergar a morte, no sentido de que o indivíduo toma ações ao longo da vida - controlando a pressão, fazendo atividade física, reduzindo o consumo de sal, fazendo uso moderado de álcool, controlando o colesterol, não fumando, entre outros exemplos - a tendência é reduzir as chances de doenças cardio e cerebrovasculares, que respondem por 40% das mortes de pessoas acima de 40 anos. Então, sim, o conjunto de medidas adotadas ao longo da vida, previnem um desfecho antes da hora”.

Dimarzio defende que o perigo - ou a salvação - podem residir também nos detalhes: “Estendendo essa questão da atenção com a saúde ao longo da vida, podemos falar de outras situações, porque quando não se cuida da musculatura do idoso, isso causa uma perda de massa muscular, causando a sarcopenia, que é a diminuição da musculatura, da massa magra, e aumentando o risco de queda e fraturas, e uma queda para o idoso é um evento gravíssimo. Antes de ser admitido aqui na Casa, fazemos uma avaliação obrigatória que avalia quais os riscos de quedas para aquela pessoa. E isso é extremamente importante, porque quando um idoso cai, a chance de fraturas é alta, podendo ter complicações, inclusive a morte. É interessante pensar que, ao longo desses 22 anos como médico, ninguém nunca me agradeceu, dizendo: ‘doutor, obrigado, porque a mamãe nunca fraturou o fêmur’. Eu fui a muitos velórios de pacientes, e nunca ouvi esse tipo de situação. Os pais ou avós morreram em decorrência de câncer, infarto, AVC, ou até mesmo pelo próprio processo de envelhecimento, mas o médico nunca vai ouvir os familiares agradecendo porque o idoso não morreu por conta de uma queda. Todavia, eu sei que o resultado de fortalecimento muscular e maior qualidade de vida veio daquela visita domiciliar em que retirei o tapetinho do quarto, que prestei atenção na iluminação da casa, ou que orientei à família sobre a necessidade de o idoso fazer fisioterapia ou musculação para ganhar massa magra nos glúteos e no quadríceps, que são detalhes importantes para manter a independência do indivíduo”.

Querer nem sempre é poder. E caso esses dois verbos não consigam caminhar juntos, há uma impossibilidade, uma disfuncionalidade importante ocorrendo e que merece atenção. No caso de um idoso disfuncional (o termo técnico para aquela pessoa acima de 60 anos de idade que não consegue mais executar ações com independência autonomia e, sobretudo, segurança), neste caso, faz-se necessária a compreensão, por parte dele e da família, de que um cuidado profissional deve ser considerado. Contudo, conforme Dimarzio já havia dito: essa é uma decisão estritamente da família.

Inclusão e conexão com o mundo

O reflexo luminoso na parede de pedra rústica faz lembrar o fogo ardente do jazz. Massa fresca, fonduta de parmesão e ragu de costela. Acompanhada de uma gelada taça de Valduga Cabernet Sauvignon, a Lasagna com Ragu de Costela é uma das especialidades do La Terraza - opção também vegetariana, com funghi e creme de espinafre. Pedida perfeita para degustar as notas de acidez equilibrada de Miles Davis, no Piano Piano Jazz Club, anexo ao restaurante. Essa é só uma das dezenas de opções de lasanhas disponíveis em Serra Negra, em pleno século 21, época em que é possível comer lasanha feita a partir de massa fresca em qualquer dia da semana. Mas nem sempre foi assim: “Vivemos sempre com pressa. Estamos aqui tendo essa conversa, e ao terminar terei entre 35 e 40 mensagens de WhatsApp para responder. Vi minha esposa ligando agora pouco, não pude atender, e não sei se é algum problema sério a ser resolvido ou não. 30 anos atrás simplesmente não era assim. Hoje resolvemos 800 coisas por dia, mas tem mais 80 situações que não tivemos tempo para lidar com elas. Fazemos tudo, vemos tudo, temos acesso a todas as coisas das quais gostamos. Hoje em dia existem 20 tipos de lasanha boas em Serra Negra para comer numa terça-feira (dia em que ocorreu a entrevista). Há 50 anos, só existia a da sua avó, se ela cozinhasse para você. Quantas lasanhas boas existem hoje para comer aqui na cidade? Tem, pelo menos, umas 20 maravilhosas, uma melhor que a outra”, delicia-se em pensamento o médico, talvez já pensando qual delas irá pedir daqui a cerca de duas horas após o fim de nossa conversa.

Apesar das facilidades que a tecnologia e a modernidade trazem ao homem contemporâneo, um idoso pode entrar num processo de depressão, ou ter o quadro agravado caso ele já dê sinais que ela está se instalando, pelo fato de ele não sentir-se inserido no contexto da família e da comunidade: “Os cinco sentidos - paladar, visão, tato, olfato e audição - são as ferramentas que utilizamos para nos conectar ao mundo ao nosso redor. Se perdemos uma ou mais delas, ou temos algum déficit em uma dessas faculdades, sofremos prejuízos de ordens diversas. Há cerca de três semanas atendi uma senhora que já está num quadro depressivo, e fiz o teste do sussurro com ela. Ali mesmo percebi que ela já apresenta um déficit auditivo. É importante conversar sobre isso com a família, alertar a todos que têm contato com ela, especialmente porque não se trata apenas de receitar antidepressivos, ela precisa também de um aparelho auditivo e de uma avaliação. É interessante que para com o idoso cego quase todo mundo tem um pouco de piedade, mas aquele com déficit auditivo ou mesmo surdo, principalmente aqueles que não fazem leitura labial, a família não reage da mesma maneira, e se comunica com ele aumentando o tom de voz, e fazendo uso corriqueiro de gritos e berros, aumentando também o volume da televisão e outros aparelhos e, acima de tudo, excluindo aquela pessoa do convívio familiar”.

Giuliano Dimarzio tem total certeza dos ganhos sociais e de saúdes física, mental e emocional que a Casa di Matera proporciona a seus moradores. Todavia, também tem plena consciência de que nem ele, como profissional, tampouco a instituição, substituem a família e o seu papel na vida do idoso: “Nós não vamos suprir aquilo que a família faz. Vamos, antes, cuidar justamente daquilo que a família não consegue fazer. Mas nós jamais conseguiremos substituir a família em seu papel, e nem pretendemos isso. É o que eu digo: ninguém, nunca, vai conseguir fazer aquilo que meu filho ou minha filha podem fazer por mim. Mas, talvez, não seja me dar um banho”.

Cuidados paliativos

“A pessoa que está em cuidados paliativos é aquela que o mais importante não é quanto tempo ela vai viver, mas promover um alívio do sofrimento, uma garantia de qualidade de vida, cuidando para não ter dor, dispneia e falta de ar, alterações bruscas da pressão, e outras questões que possam prover o alívio do sofrimento. Isso pode acontecer com pacientes acometidos por diversas doenças, como câncer, insuficiência cardíaca e outras doenças pulmonares, entre outras. A intenção dos cuidados paliativos não é fazer a pessoa viver mais 10, 5 ou 2 anos, antes, o objetivo é fazer que independentemente do tempo de vida que ela disponha, ela viva o melhor possível . Se pararmos para pensar qual vida teremos, ainda assim sabemos que certamente morreremos, portanto, estamos lidando com a finitude e com a terminalidade da nossa existência. Contudo, nós estudamos para reconhecer quando o paciente já não apresenta uma performance perfeita, e que está mais próxima da morte, o que não é o meu caso, por exemplo, com 47 anos de idade, sem nenhuma doença crônica, e que posso morrer apenas por uma causa externa, como um acidente de trânsito, por exemplo. Mas a tanatologia lida com questões desafiadoras, que nos ensinam a reconhecer, do ponto de vista da natureza humana, um declínio da atividade biológica que nos aponta, em muitos casos, quais são as últimas 24 horas de vida de um paciente”.

E quando é chegado o momento derradeiro, Giuliano Dimarzio defende que é necessária uma habilidade de comunicação que nem todos os profissionais da área da saúde possuem: “Como dar uma notícia difícil à família? Atualmente, existem aulas - e eu mesmo sou professor no curso de Medicina - sobre Protocolo Spikes (metodologia estruturada em 6 etapas: Setting, Perception, Invitation, Knowledge, Emotions, Strategy - Preparação, Percepção, Convite, Conhecimento, Emoções e Empatia, Estratégia e Síntese - para comunicar más notícias na área da saúde de forma humanizada e empática). Lidamos com esse tipo de situação na entrevista admissional de um idoso que quer morar na Casa di Matera. Graças a Deus, quem passou por aqui ao longo desses 30 poucos dias de funcionamento, está melhor em termos de saúde. Há uma paciente, por exemplo, vindo do hospital depois de muitos meses, e que agora já fica muito mais tempo em pé, se alimenta melhor, já ganhou peso e está mais animada e disposta, dorme melhor e realiza as atividades de maneira mais fluida. Mas não é sempre que vamos testemunhar algo assim. Haverá os momentos difíceis e tristes também, e estamos preparados para eles”, garante Giuliano Dimarzio.

Sobre a mesa de madeira, além do notebook, jornal e receituário, uma pequenina flâmula branca ostenta 125 anos de história, e um escudo listrado em preto e branco com as insígnias A.A.P.P. em diagonal. A paixão pela Ponte Preta revela a origem de Dimarzio, que aos poucos adota Serra Negra como seu mais novo refúgio: “Quero deixar a Casa di Matera à disposição das pessoas. O público pode conhecer nossos serviços por meio do site oficial (www.casadimatera.com.br) ou pelas redes sociais, no Instagram @casadimatera.serra - e fiz questão de deixar Serra Negra em evidência, pois tenho muito carinho por essa cidade que conheci há pouco tempo, mas que já ganhou meu coração. Eu sou campineiro, e atualmente moro em Amparo, mas escolhi este lugar para realizar meu sonho. Tenho amigos aqui, e estabeleci um ótimo relacionamento com toda a equipe da prefeitura, que foi muito solícita desde o início, além de toda a sociedade que me recebeu de braços abertos. Nosso objetivo é contribuir para que Serra Negra seja um local reconhecido para além do turismo de estância e passeio, agora também como um destino de cuidado digno para com as pessoas idosas”.

Enquanto o primeiro portão, que dá acesso ao consultório de Giuliano Dimarzio, permanece fechado, o segundo está aberto para receber os visitantes e os interessados em conhecer a Casa di Matera, revelando um verdejante gramado que se estende em frente aos apartamentos. As flores e as frutas, cada qual produzindo em sua estação própria, contribuem para embelezar o local, enquanto nos lembram que a vida também é parte da natureza: uma semente que cresce, rompe o seu primeiro endereço maternal, se expande pelo mundo e floresce. Até que em determinado momento, esse organismo, por ato involuntário, resolve descansar. Mas até que esse dia chegue, esse corpo e essa mente ainda anseiam por carinho, atenção e respeito. E é isso, dentre tanto mais, o que a Casa di Matera oferece.

Você pode ouvir essa história, com a entrevista de Giuliano Dimarzio, além de ouvir os próximos episódios da série Entre Linhas e Vozes no canal da Freestory no Spotify, clicando aqui.

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