As paredes cálidas ornadas por portas e janelas azuis de arquitetura colonial abrigam um amplo espaço de lazer e eventos. Entre casarios e outras edificações datadas do início do século 20, o prédio é uma das principais construções do Centro Histórico da pequena cidade, que abriga ainda a mais imponente estrutura daquela região: a Igreja do Senhor Bom Jesus, elevada acima de outras casas vizinhas, agiganta-se a partir da escadaria defronte à praça que leva o mesmo nome. À direita do templo, o salão, acostumado a receber bailes e festas ao longo das décadas, seria palco para mais um encontro que remeteria à formação cultural e econômica do Circuito das Águas Paulista.
Na fria noite de sexta-feira, 15 de maio de 2026, dezenas de pessoas se reuniam para saudar o passado glorioso do café paulista, projetando-o na atualidade como a principal fonte de renda de inúmeras famílias da região. E com o intuito de aplicar técnicas que melhorem a produção e a entrega da matéria-prima, aumentando sua qualidade na xícara, o Centro de Preparação do Café (CPC), do Museu do Café de Santos, promoveu o Curso Básico de Barista a produtores rurais, empreendedores, comerciantes e coffee lovers no Clube 1º de Outubro, na Praça Bom Jesus, no Centro Histórico de Monte Alegre do Sul-SP.
A sexta-feira à noite foi o primeiro passo do evento de formação que se seguiu ao longo do fim de semana, levando conhecimento, cultura e profissionalização a 25 alunos que se inscreveram na modalidade itinerante do curso oferecido por um dos mais respeitados órgãos do setor no país.
“Nós temos uma longa trajetória desenvolvendo a formação de baristas no Museu do Café, e a partir da implementação das Rotas do Café pelo Governo do Estado de São Paulo, desenvolvemos, junto com a Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, uma série de cursos básicos de uma semana de duração, de formação de baristas e atividades educativas vinculadas à área no interior de São Paulo, em municípios que fazem parte das Rotas. Neste sentido, selecionamos algumas cidades que não possuem ainda tantas ações educativas, museológicas e culturais de formação, e por esse motivo, Monte Alegre do Sul foi escolhida como a primeira cidade para receber esse curso, em que tivemos uma ampla participação popular. Tivemos 25 pessoas participando, um número maior do que de costume, já que no próprio Museu do Café, em Santos, fazemos com turmas de 20 pessoas, geralmente. Mas como a procura foi muito grande, resolvemos abrir mais vagas”.
Este é Henrique Trindade, coordenador de formação educativa do Museu do Café de Santos. Para ele, o engajamento do público foi o grande diferencial do lançamento dos cursos itinerantes: “Foi sensacional! Tivemos praticamente todo mundo envolvido com o universo do café, produtores aqui de Monte Alegre do Sul e do Circuito das Águas, além de pessoas que já trabalham com cafeteria e coffee lovers, ou seja, quem vive e sobrevive do café do estado de São Paulo. E a essas pessoas, e às que nos acompanham, faço o convite para conhecerem o Museu do Café, em Santos, no litoral norte do estado, que fica próximo ao Porto de Santos, no Centro da cidade. O espaço é aberto de terça-feira a sábado, das 9h às 17h, e aos domingos, das 10h às 17h, com o ingresso a R$16,00, e aos sábados com entrada franca. Além disso, o público pode conhecer também os cursos de formação disponíveis no Centro de Preparação de Café, o nosso CPC. Para tanto, basta entrar em contato pelo site do museu, e pelas redes sociais, no Instagram: @museudocafe. Estamos à disposição de todos e, claro, venham sempre ao museu degustar um bom café brasileiro conosco”.
7,3 segundos são suficientes para moer o grão depositado no Hopper. Um a um, os grãos vão caindo até o porta-filtro com bico duplo, próprio para a extração de duas xícaras de espresso. Agora moído, o barista lança mão do WDT para quebrar grumos e distribuir o pó de café uniformemente no porta-filtro, que é posteriormente pressionado com a força do braço, antes de ser posicionado a 45º na máquina. Botão acionado, o líquido cai em cerca de 25 segundos na pequena xícara, que precisa ser servida dentro do próximo minuto e meio, antes de a crema se desfazer.
Abandonando os atuais empregos para realizar o sonho, Alan Oliveira e Gisela Nogueira querem replicar todo esse processo em um novo empreendimento na cidade de Guarulhos, na Grande São Paulo, levando os cafés do Circuito das Águas Paulista para brilharem em um dos destinos comerciais mais importantes do país, com chegadas e partidas de voos nacionais e internacionais a partir do aeroporto mais movimentado da América Latina: "Foi tudo excelente aqui em Monte Alegre do Sul, e o curso foi incrível. Fomos muito bem recebidos pelo corpo docente e por toda a cidade, tanto a equipe que trabalhou conosco, quanto os locais. Vimos que aqui tem vários produtores, e isso vai ser muito legal porque queremos conhecer os cafés do Circuito das Águas para adicionar esse produto em nossa cafeteria, que será especializada em cafés especiais. Acredito que essa parceria vai dar muito certo para levar os grãos do Circuito das Águas para a Grande São Paulo. Aprendemos muito aqui, provamos cafés maravilhosos durante o curso, fizemos harmonizações, e foi tudo maravilhoso”.
Alan e Gisela explicam um pouco mais sobre o conceito do novo empreendimento: “É uma cafeteria que é também uma escola de negócios. Ou seja, disponibilizaremos para o público cursos sobre empreendimento, gestão de negócios, entre outros, além de ter o café como carro-chefe e protagonista. Pretendemos também contar a história do café, porque acreditamos que ela tem tudo a ver com saber empreender, e não apenas produzir. Por isso, é também primordial conhecer os processos do café. Chegamos aqui com bastante sede de conhecimento e estamos saindo com mais insights que o curso gerou para empregarmos isso lá na nossa cafeteria. Tínhamos também muita ansiedade, pensando em algo muito grandioso, e aqui deu para filtrarmos as ideias e saber exatamente onde é que temos que focar”.
Acostumado a lidar com as intempéries do tempo, como sol e chuva, e frio e calor, com a globalização e com a evolução do mercado, o produtor rural está cada vez mais próximo do consumidor final. E precisa estar porque o público ficou mais exigente com relação àquilo que compra.
Sendo assim, não é de se estranhar que o curso de barista do Museu do Café tenha reunido tantos produtores, como Alex Carmo, produtor de café de Monte Alegre do Sul que está se empenhando em produzir cafés cada vez melhores: “Eu, como pequeno produtor, estou tentando trazer uma qualidade melhor para o que produzimos no sítio, então, o curso de barista foi uma novidade para mim porque pude conhecer máquinas diferentes, processos variados, e achei super bacana a possibilidade de realmente buscar melhorar a qualidade do café que disponibilizamos às pessoas. Agora é produzir melhor lá no terreiro, lá na plantação, para entregar um produto realmente melhor para o consumidor final”.
E assim como Alex, o jornalista e produtor rural Vinícius Gandolphi está em busca de agregar conhecimento para a produção da família, que está localizada no município de Amparo, também no Circuito das Águas. Gandolphi considera que formações como a do CPC são fundamentais para isso: “Foi uma oportunidade bem legal, tanto para conhecer as pessoas que estão interessadas e inseridas no mundo do café, uma coisa nova para mim que era de outro mercado e que recentemente me aproximei do setor, mas foi bom também para ter esse conhecimento e entender como funciona o preparo de um bom café, conhecer um pouco mais dos processos dos grãos e da bebida em si, e toda a cadeia da produtiva do café. É um curso muito rico nesse sentido, mesclando a prática com a teoria, que também agrega conhecimento para seguir em frente e procurar produzir um café sempre melhor, a fim de que quando a matéria-prima chegue nas mãos de um barista, ele consiga extrair dali uma bebida de excelência”.
Coffee lover, Ana Paula Comodaro diz que o curso vai além da teoria, trazendo, na prática, experiências que somam àquele que deseja preparar um bom café, com mais qualidade e mais sabor: “Eu gostei muito do curso. Foi uma experiência imersiva interessante, e todas as atividades agregaram muito conhecimento. Espero que haja outros cursos aqui no futuro para participarmos e aumentarmos nosso conhecimento, aprofundando ainda mais, com o objetivo de entender melhor e mais a fundo cada um dos processos”. Ela é categórica ao dizer que “a partir de agora, o café preparado em casa vai ficar melhor”.
Um gigante avança lentamente ganhando as águas próximas à praia. Um arco-íris de contêineres coloridos se avolumam sobre o enorme casco azul de borda grená que rasga as águas do Atlântico. Indo e vindo de todas as partes do mundo, ao menos um desses contêineres carrega toneladas e mais toneladas de café, que vão parar em diversas partes do mundo, em países como Alemanha, Estados Unidos, Itália, Bélgica e Japão.
Segundo a Embrapa, o Brasil é responsável por 40% de todo o suprimento global do grão, sendo a espécie arábica a mais cultivada. "Estamos bastante otimistas. Muito provavelmente o Brasil vai ter a maior safra da história. E isso rapidamente a gente vai começar a ver nos embarques. Talvez em julho, agosto vai começar a pronunciar isso", afirmou o diretor Comercial e de Operações da EISA (Empresa Interagrícola S.A.), Carlos Santana, à Reuters, nos bastidores do Seminário Internacional do Café, em Santos-SP, realizado entre os dias 19 e 21 de maio de 2026 no litoral paulista.
Sem precisar embarcar em um transatlântico, mas com o pé na estrada e trazendo na bagagem muito conhecimento, o barista e instrutor do CPC Rodrigo José apresenta uma infinidade de possibilidades de se trabalhar com o café, especialmente com os grãos produzidos no Circuito das Águas Paulista. E por isso mesmo, ele trouxe toda a sua experiência até Monte Alegre do Sul: “É um dos primeiros contatos dessas visitas das Rotas do Café, e a gente pode observar que esses alunos que vieram compartilhar suas experiências, principalmente os que já trabalham no campo, na roça, fazendo a colheita, alguns que estão abrindo cafeterias, outros que estão apaixonados por café, todos juntos querendo entender o que é um café especial e o que o mercado está pedindo. A ideia deste curso, portanto, é estimular várias pessoas a seguirem o caminho do barista, que é um profissional na arte de tirar um bom café. Nossa proposta é fazer com que os alunos conheçam todas as etapas, desde o processo da colheita até o produto final”.
Rodrigo José comenta as diferenças entre o café industrial, aquele vendido nos supermercados, e os cafés especiais e sua qualidade diferenciada: “Temos o café do mercado, o café da indústria, mas temos também o café de torras artesanais, de pequenos produtores que, muitas vezes pela falta de informação, poderiam vender o seu produto três ou quatro vezes mais que o valor de mercado. Então, essa formação vem para isso também, para ajudar e trazer esse conhecimento para esse pequeno produtor, bem como para donos de cafeterias e outros empreendedores que estão pensando em abrir ou expandir o seu espaço dedicado ao café, e com grãos da própria região do Circuito das Águas Paulista. E esse é o sentido de trazer esse conhecimento para o aluno, mostrando as principais diferenças que envolvem um bom café”.
O instrutor defende que é mito afirmar que o Brasil retém apenas bebidas de qualidade inferior, enquanto os bons cafés são exportados: “Não sei se muitas pessoas sabem, mas o Brasil é o maior produtor de café no mundo, e um café conhecido por todos pela alta qualidade, utilizado como base para outras bebidas ‘blendadas’, ou seja, quando é feita a combinação de diferentes grãos, sendo uma porcentagem de grãos brasileiros e outra de grãos da Colômbia, da Índia ou da Nicarágua, por exemplo. Então, aquela história de falar que o melhor café vai para fora do país, não é verdade. Temos excelentes cafés arábicas e canéforas que são produzidos e que ficam por aqui, e é por isso que defendemos que quanto mais informação a embalagem trouxer, melhor será para o consumidor. Os alunos trouxeram seus cafés aqui e nós analisamos todos eles. Posso dizer que são ótimos cafés, todos com muito potencial, mesmo aqueles que ainda necessitam de pequenos ajustes, mas que podem ser resolvidos com mais conhecimento”.
Durante o curso, uma das orientações dadas pelo barista é que as cafeterias e os profissionais envolvidos no café façam uma espécie de letramento com o cliente, explicando qual o método utilizado para a extração daquele café, qual grão foi escolhido, em qual região ele foi produzido e qual o nível de torra, entre outros dados que possam contribuir para fazer a diferença para o consumo do cliente final: “A dica que sempre damos é procurar vender o produto em grão ou, no máximo, moer no momento do consumo, para que a pessoa sinta essa diferença. Além disso, quem vai vender café embalado, colocar a descrição do produto com o máximo de informações pertinentes, e possibilitar a degustação da bebida antes da compra. Quanto mais eu educar meu cliente, melhor será o meu resultado. E os alunos aqui tiveram essas experiências, moendo, extraindo, preparando, degustando, provando e, inclusive, harmonizando cafés de diferentes variedades e combinando com doces e queijos”.
De Santos para a Austrália, da Austrália para Monte Alegre. Nicole Pasqualini debutou como barista assistente justamente na Cidade-presépio. A latina amarela caiçara - como ela própria se identifica - aprendeu muito do que sabe sobre preparo de café no CPC, rodou o mundo para agregar ainda mais conhecimento na área e, em dueto com Rodrigo José, valsou em Monte Alegre durante o espetáculo do curso ministrado por eles como uma verdadeira bailarina nos palcos do ouro verde. “Minha trajetória começou neste mesmo Curso de Barista do Museu do Café, no Centro de Preparação de Café. Depois disso, trabalhei no CPC e, logo em seguida, fui para a Austrália, em intercâmbio, e lá fiz outros cursos de barista, conseguindo trabalhar numa cafeteria brasileira. Depois de um ano e meio na Austrália, voltei ao Brasil em março de 2025, e consegui um emprego na cafeteria do Museu, mesmo, atuando como barista por aproximadamente oito meses. Foi quando, um mês atrás, abriu essa vaga para o CPC, eu apliquei e agora faço parte do time”.
As mulheres sempre tiveram uma participação fundamental no setor cafeeiro. Sempre, mesmo. Suas mãos se sujavam no cafezal enquanto ajudavam na plantação e na colheita, seus braços doíam ao mover os grãos no terreiro, e seus corpos só paravam para relaxar - quando isso era possível - ao sentir o aroma da bebida que subia como incenso aos céus durante o preparo do cafezinho no fim da tarde. Contudo, a participação das mulheres no universo do café tem se expandido para além da necessidade do trabalho na roça, se tornando uma possibilidade e um desejo delas para atuar no preparo dos cafés especiais como baristas Brasil afora. Isso sem falar das produções exclusivamente femininas: “Hoje em dia, eu acredito que a predominância masculina ainda seja bastante forte neste setor, mas estou bastante feliz por ver que muitas mulheres estão entrando nessa área, desde a fazenda, desde a plantação, até o produto final, o barismo, onde já vemos mais mulheres entrando nessa área e sendo reconhecidas e premiadas”, acrescentou Nicole.
Para Nicole, que estreou na modalidade de cursos, o evento em Monte Alegre do Sul foi um sucesso: “O pessoal estava bem interessado e gostou bastante do nosso curso. Tivemos a participação de alguns produtores que, inclusive, trouxeram alguns cafés para experimentarmos, trouxeram ainda café cereja, doces e queijos para fazermos a harmonização. Foi um sucesso”.
Ao final do curso, todos os participantes puderam sedimentar a compreensão de que “café não é tudo igual”. Ao contrário, são inúmeros os fatores que determinam as mudanças na textura, no corpo, nos aromas e, por fim, no sabor da bebida, potencializando ou reduzindo sua qualidade. Entre eles: a preparação do solo; o terroir; as formas de colheita, secagem e lavagem; os níveis de torra e os objetivos para cada determinado fim; e, finalmente, o método de preparo - esse, pelas mãos do barista - que também altera o resultado final do produto.
Adquirido o conhecimento, agora é hora de iniciar os testes, do Melitta ao espresso, passando pela V60, prensa francesa e por inúmeros outros métodos, cada qual produzindo seu próprio resultado, expresso em cada gole de café.
Você pode ler essa história na íntegra, com os depoimentos dos participantes deste episódio, além de ouvir os próximos da série Entre Linhas e Vozes no canal da Freestory no Spotify, clicando aqui.