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Henrique Vieira Filho é artista plástico, agente cultural (SNIIC: AG-207516), produtor cultural no Ponto de Cultura “ReArte” (Certificado Ministério da Cultura), Museólogo no Museu Rearte (reconhecido pelo IBRAM/Ministério da Cultura), gestor Pontos MIS (Museu da Imagem e do Som/SP), diretor de arte (MTE 0058368/SP), produtor audiovisual (ANCINE: 49361), escritor, jornalista (MTE 080467/SP), educador físico (CREF 040237-P/SP), psicanalista, sociólogo (MTE 0002467/SP), historiador, professor de artes visuais, pós-graduado em Psicanálise, em perícia técnica sobre artes e em Biblioteconomia.
Como psicanalista, aprendi cedo que o julgamento é o maior obstáculo para a escuta. No consultório — ou na vida — observar o comportamento humano exige uma espécie de "suspensão ética": em vez de perguntar se algo é certo ou errado, perguntamos para que serve. E poucas coisas são tão reveladoras sobre o funcionamento do nosso psiquismo quanto a nossa indignação seletiva.
Recentemente, fomos atravessados por dois lutos de escalas incomparáveis. De um lado, a trágica morte de Orelha, o cachorro comunitário que mobilizou cidades, gerou abaixo-assinados e uma dor coletiva palpável. De outro, as imagens devastadoras vindas de Gaza, onde o horror se tornou uma constante estatística. Por que o choro pelo cão parece, muitas vezes, mais ruidoso que o silêncio pelo genocídio?
A psicanálise nos oferece algumas chaves para entender isso sem apontar o dedo.
Nós operamos por meio da cisão (ou clivagem). O mundo é complexo demais, então, “simplificamos” o dividimos entre o "totalmente bom" e o "totalmente mau".
Freud falava sobre o desamparo (Hilflosigkeit) diante de estímulos excessivos. Uma guerra é um trauma de proporções irrepresentáveis; o psiquismo simplesmente "desliga" para não entrar em colapso. Já a morte de um animal local é uma tragédia "mastigável". Nela, podemos apontar um culpado, pedir justiça e sentir que temos agência. É um luto que cabe na palma da mão.
Essa mesma régua aparece quando comparamos a mobilização por uma criança autista perdida e o julgamento sobre um adulto perdido em uma trilha.
Não podemos esquecer que vivemos a "fast-foodização" da tragédia. Os algoritmos das redes sociais são treinados para o engajamento visceral.
Tragédias lineares (como a do cão ou da criança) têm baixa carga cognitiva; são fáceis de processar e geram uma recompensa moral imediata. Compartilhar Gaza exige esforço, estudo e o risco do conflito de opiniões — algo que a economia da atenção tenta evitar a todo custo.
No fim das contas, a indignação seletiva não é uma prova de maldade, mas um sintoma de nossa limitação psíquica e da nossa necessidade de proteção.
Amar o "puro" é um repouso para a alma; ter empatia pelo "falho" — o adulto imprudente, o outro político, o estrangeiro distante — é o verdadeiro e hercúleo desafio ético da nossa era.

