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Henrique Vieira Filho é artista plástico, agente cultural (SNIIC: AG-207516), produtor cultural no Ponto de Cultura “ReArte” (Certificado Ministério da Cultura), Museólogo no Museu Rearte (reconhecido pelo IBRAM/Ministério da Cultura), gestor Pontos MIS (Museu da Imagem e do Som/SP), diretor de arte (MTE 0058368/SP), produtor audiovisual (ANCINE: 49361), escritor, jornalista (MTE 080467/SP), educador físico (CREF 040237-P/SP), psicanalista, sociólogo (MTE 0002467/SP), historiador, professor de artes visuais, pós-graduado em Psicanálise, em perícia técnica sobre artes e em Biblioteconomia.
Faz seis anos que adotei Serra Negra como lar definitivo, trazendo na bagagem décadas de experiência em artes e cultura. Mas a região já havia me adotado muito antes. Minha árvore genealógica tem raízes profundas por aqui: pai, tios, avós... todo mundo sempre foi serrano, amparense ou montealegrense.
Mesmo assim, no início, eu esbarrava no sutil estranhamento local traduzido na pergunta: — Mas, escuta, você é daqui mesmo?
Quase puxei um gráfico de pizza do meu DNA para responder. Afinal, 5% da minha herança é indígena — morando por estas bandas há milênios. Dos meus 90% europeus, rastreei 30% de judeus-portugueses na região desde 1700, e os outros 60% são de italianos do século XIX. Se isso não for ser "daqui", não sei o que é!
Cansado de justificar minha genealogia, sugeri certa vez: — Dá uma lida na placa aos soldados da Segunda Guerra, na Praça do Fórum. O nome Ari Vieira é do meu tio. Depois, passa na Praça JFK e olha o monumento de 1932. O Durvalino Vieira gravado no bronze é o meu avô.
Meu avô Durvalino faleceu antes de eu nascer, mas o DNA é fascinante: partilhamos das mesmas batalhas. Ambos fomos sindicalistas. Ele defendia a categoria na histórica Fábrica de Chapéus de Palha de Serra Negra e no Sindicato dos Oficiais Alfaiates e Trabalhadores de Confecções de São Paulo. Décadas mais tarde, lá estava eu na presidência do Sindicato dos Terapeutas, defendendo as práticas "alternativas" (termo que popularizou, embora eu não adore).
O que leva alguém a abandonar o sossego para se dedicar a uma causa? No meu caso, são três gerações de combatentes. Alguém dirá: "Ah, Henrique, mas a sua munição foram palavras!". De fato. Minhas armas foram a argumentação e a paciência para vencer burocracias criadas para impedir o avanço da profissão.
Mas, nunca subestimem a garra de um autista idealista! Há uma explicação neurológica para a minha incapacidade crônica de ver uma injustiça e deixar para lá. A ciência chama isso de Justice Sensitivity (Sensibilidade à Justiça), um traço cognitivo marcante no Transtorno do Espectro Autista (TEA). Para nós, a injustiça não é um mero incômodo moral; é um desconforto físico, visceral. Quase um “nojo sensorial”, disparando um alarme primitivo em nossa mente. Some-se a isso uma hiperempatia natural e a tendência à ruminação cognitiva (reviver o evento em looping), e temos o combustível para um revolucionário.
Se hoje você vê em qualquer esquina um consultório de acupuntura, shiatsu, reiki ou psicanálise, saiba que houve um preço alto. Há quarenta anos, bastava trabalhar no ramo para correr o risco de ser preso. Quanto mais sucesso o terapeuta fazia, mais rápido surgia uma "denúncia anônima". A polícia baixava, algemava o profissional e apreendia macas e equipamentos.
A calmaria só veio após muita luta e um divisor de águas: um debate mediado por Marília Gabriela, transmitido ao vivo pela TV e reprisado três vezes. De um lado, o Conselho de Medicina; do outro, este que vos escreve, pelos terapeutas. Garantimos o direito de trabalhar em paz. Esse "causo" merece uma crônica inteira só para ele.
À minha moda, sem fuzil, mas com a caneta, a palavra e o cérebro hiperconectado contra as injustiças, eu também estive nas trincheiras. Aos paulistas de 32, o meu respeito. Sei bem o que sentiram.



