Henrique Vieira Filho
Henrique Vieira Filho

Henrique Vieira Filho é artista plástico, agente cultural (SNIIC: AG-207516), produtor cultural no Ponto de Cultura “ReArte” (Certificado Ministério da Cultura), Museólogo no Museu Rearte (reconhecido pelo IBRAM/Ministério da Cultura), gestor Pontos MIS (Museu da Imagem e do Som/SP), diretor de arte (MTE 0058368/SP), produtor audiovisual (ANCINE: 49361), escritor, jornalista (MTE 080467/SP), educador físico (CREF 040237-P/SP), psicanalista, sociólogo (MTE 0002467/SP), historiador, professor de artes visuais, pós-graduado em Psicanálise, em perícia técnica sobre artes e em Biblioteconomia.

Colunas

A Árvore Que Já Sabia

Nesta crônica, Henrique Vieira Filho resgata o encontro memorável entre a ativista indígena Kena Marubo e uma paineira tricentenária em Serra Negra, que serviu de inspiração para suas telas a óleo Lindóia e Sereia Marubo. A partir dessa imagem potente, o autor reflete sobre a emergência climática, aproximando a ancestralidade amazônica da identidade mítica do Circuito das Águas, e destaca a importância da Mostra Cinema e Direitos Humanos no Museu ReArte, cujas animações infantis renovam a esperança de um futuro sustentável. #HenriqueVieiraFilho #Cronica #KenaMarubo #SerraNegra #MuseuReArte #ArtesPlasticas #PinturaAOleo #SereiaMarubo #Lindoia #JusticaAmbiental #Ancestralidade #CircuitoDasAguas #CinemaEDireitosHumanos #Sustentabilidade #Cultura

Compartilhe:
A Árvore Que Já Sabia
Kena Marubo e Pinturas de Henrique Vieira Filho

Há alguns anos, uma jovem indígena da Amazônia posava para fotografias aos pés de uma velha paineira em Serra Negra. Ela estava ali servindo de inspiração para as minhas pinturas a óleo sobre tela, as mesmas que dariam vida às obras Lindóia e à Sereia Marubo

A cena parecia improvável. De um lado, Kena Marubo, ativista, artista, representante de um povo cuja história nasceu entre rios, florestas e narrativas ancestrais. De outro, uma árvore que já ultrapassou três séculos observando o mundo passar pelas montanhas do Circuito das Águas.

Eu observava as duas pelo visor da câmera.

E, por um instante, tive a estranha sensação de que não era a jovem quem estudava a árvore. Era a árvore quem estudava a jovem!

Talvez porque ambas falassem a mesma língua: a do tempo.

Quando Kena contou histórias de seu povo durante sua residência artística no Museu ReArte, falou sobre seres das águas, sobre mulheres-peixe, sobre uma forma de enxergar a natureza não como cenário, mas como parente.

Confesso que aquela visão me pareceu familiar. Porque, quem vive em Serra Negra, também cresce cercado por montanhas que parecem possuir humor próprio, fontes que mudam de intensidade conforme as estações e árvores tão antigas que acabam adquirindo personalidade.

Talvez a diferença entre a ciência e as lendas seja apenas a forma de cumprimentar a mesma realidade.

Hoje em dia, os especialistas falam em “emergência climática”. A expressão é correta mas, também é curiosa.

Porque para os povos indígenas a “emergência” não começou agora.

Há gerações eles observam rios adoecerem, florestas recuarem e espécies desaparecerem. Enquanto nós chamamos de crise, muitos deles chamam de memória.

Os filmes que o Museu ReArte exibirá neste sábado — dentro da Mostra Cinema e Direitos Humanos — fazem exatamente esse convite: escutar vozes que costumam ser ignoradas.

Em "Ga vī: a voz do barro", mulheres Kaingang mostram como território e ancestralidade são inseparáveis. Em "Òsányìn: O segredo das folhas", a preservação ambiental surge através do conhecimento das plantas. Em "Amazônia sem Garimpo", os impactos da mineração ilegal são explicados de forma sensível.

E há uma beleza poética na escolha das linguagens. Filmes como "No Início do Mundo" apostam no encantamento da animação. 

São obras acessíveis inclusive ao público infanti e isso não é um detalhe menor. É uma estratégia de sobrevivência. Se a nossa geração falhou em ouvir a terra, são as crianças, com sua capacidade intacta de se espantar com o mundo, que carregam a semente de um futuro mais sustentável. O cinema, aqui, conversa com a pureza que ainda nos resta.

Mas talvez a grande questão não seja salvar a floresta, pois ela provavelmente continuará existindo de alguma forma.

A pergunta é outra: seremos capazes de continuar existindo sem aquilo que ela nos ensina?

A velha paineira de Serra Negra parece conhecer a resposta. Ela estava aqui antes de nós. Talvez permaneça depois.

E talvez, como Kena Marubo naquela tarde distante, ela continue repetindo a mesma lição para quem quiser ouvir:

Que a natureza não é algo que possuímos.

É algo ao qual pertencemos.

Há alguns anos, uma jovem indígena da Amazônia posava para fotografias aos pés de uma velha paineira em Serra Negra. Ela estava ali servindo de inspiração para as minhas pinturas a óleo sobre tela, as mesmas que dariam vida às obras Lindóia e à Sereia Marubo

A cena parecia improvável. De um lado, Kena Marubo, ativista, artista, representante de um povo cuja história nasceu entre rios, florestas e narrativas ancestrais. De outro, uma árvore que já ultrapassou três séculos observando o mundo passar pelas montanhas do Circuito das Águas.

Eu observava as duas pelo visor da câmera.

E, por um instante, tive a estranha sensação de que não era a jovem quem estudava a árvore. Era a árvore quem estudava a jovem!

Talvez porque ambas falassem a mesma língua: a do tempo.

Quando Kena contou histórias de seu povo durante sua residência artística no Museu ReArte, falou sobre seres das águas, sobre mulheres-peixe, sobre uma forma de enxergar a natureza não como cenário, mas como parente.

Confesso que aquela visão me pareceu familiar. Porque, quem vive em Serra Negra, também cresce cercado por montanhas que parecem possuir humor próprio, fontes que mudam de intensidade conforme as estações e árvores tão antigas que acabam adquirindo personalidade.

Talvez a diferença entre a ciência e as lendas seja apenas a forma de cumprimentar a mesma realidade.

Hoje em dia, os especialistas falam em “emergência climática”. A expressão é correta mas, também é curiosa.

Porque para os povos indígenas a “emergência” não começou agora.

Há gerações eles observam rios adoecerem, florestas recuarem e espécies desaparecerem. Enquanto nós chamamos de crise, muitos deles chamam de memória.

Os filmes que o Museu ReArte exibirá neste sábado — dentro da Mostra Cinema e Direitos Humanos — fazem exatamente esse convite: escutar vozes que costumam ser ignoradas.

Em "Ga vī: a voz do barro", mulheres Kaingang mostram como território e ancestralidade são inseparáveis. Em "Òsányìn: O segredo das folhas", a preservação ambiental surge através do conhecimento das plantas. Em "Amazônia sem Garimpo", os impactos da mineração ilegal são explicados de forma sensível.

E há uma beleza poética na escolha das linguagens. Filmes como "No Início do Mundo" apostam no encantamento da animação. 

São obras acessíveis inclusive ao público infanti e isso não é um detalhe menor. É uma estratégia de sobrevivência. Se a nossa geração falhou em ouvir a terra, são as crianças, com sua capacidade intacta de se espantar com o mundo, que carregam a semente de um futuro mais sustentável. O cinema, aqui, conversa com a pureza que ainda nos resta.

Mas talvez a grande questão não seja salvar a floresta, pois ela provavelmente continuará existindo de alguma forma.

A pergunta é outra: seremos capazes de continuar existindo sem aquilo que ela nos ensina?

A velha paineira de Serra Negra parece conhecer a resposta. Ela estava aqui antes de nós. Talvez permaneça depois.

E talvez, como Kena Marubo naquela tarde distante, ela continue repetindo a mesma lição para quem quiser ouvir:

Que a natureza não é algo que possuímos.

É algo ao qual pertencemos.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE