As mãos calejadas se esticam para retirar o fruto da pequena árvore que passou os últimos meses sendo cuidada com o maior grau de preciosismo. O suor que escorre no rosto está vertendo desde que o intenso trabalho teve início, expressando a dedicação aplicada à lavoura. O sol a pino não foi suficiente para desanimar os braços treinados para o labor. Talvez este profissional jamais tenha percebido quão poético é seu trabalho, e por isso precisa ser expresso em palavras. A chuva forte - ou a ausência dela - tampouco fez desistir esses homens e mulheres de profundo conhecimento técnico, e muita fé. Para dar certo; para florir; para colher.
E depois de todo esforço empregado, é hora de ver o resultado. Em cada galho, pequeninas esferas respondem aos raios de sol brilhando suas cores vermelha e amarela, tornando o imenso mar de folhas verdes um colorido sem igual. É desses longínquos lugares que vêm o produto central de um dos mais conhecidos e amados rituais do povo brasileiro: o café. E no último dia 24 de maio, foi celebrado o Dia Nacional do Café. E a escolha da data não é aleatória, haja vista que neste dia celebramos - juntos - o início do período da colheita dos grãos no cafezal. É momento de celebração.
E para comemorar, milhares de pessoas vieram a Serra Negra participar de um dos eventos mais consagrados do município: O Festival do Café e Riquezas da Serra, realizado entre os dias 22 e 24 de maio. Ao longo da Avenida Deputado Campos Vergal, no Centro da cidade, foram enfileiradas dezenas de barracas que traziam o representante máximo das riquezas locais, em cereja, torrado em grãos ou moído, em líquido e por meio de receitas que têm o café como protagonista.
Romilson Toledo é engenheiro agrônomo do Café Paiato e, ao lado de sua esposa, Giovana Avona, produz “um café com alma, frescor e o verdadeiro gosto do sítio”. A família Avona é grata pelos resultados alcançados logo no primeiro ano de sua participação no Festival: “O evento está muito bom, superou as expectativas porque a gente não achava que poderia vir tanta gente. A prefeitura ajudou muito, tanto pela cessão do espaço quanto pelas barracas e pela divulgação. Este evento é bom para a cidade no geral, e está muito gratificante trabalhar aqui, ao lado de cafés de excelente qualidade. Nós estamos servindo cafés especiais do nosso sítio, todos acima de 80 pontos, das variedades Catuaí e Arara”.
O testemunho do casal é acompanhado da experiência da também produtora rural e proprietária do Café dos Leais, Sílvia Fonte, que revela em suas palavras a alegria de vivenciar mais um Festival em Serra Negra: “A edição de 2026 do Festival do Café e Riquezas da Serra foi maravilhosa, grandiosa, e trazendo público de vários estados do Brasil, que veio especificamente para participar e prestigiar os cafés de Serra Negra. Foi um evento lindíssimo. A cidade traz segurança, bem-estar, a hotelaria é de primeiro nível, e nós, produtores rurais, pudemos apresentar nossos cafés, queijos, meles e outras receitas deliciosas feitas com café. Foi uma divulgação muito bem feita pela prefeitura, com estrutura e organização fantásticas e que superou o ano passado, que já tinha sido maravilhosa. Esse ano tivemos um público maior, com a presença de pessoas que conhecem café, que puderam conversar com um nível de conhecimento muito legal e que vieram, realmente, em busca dos cafés premiados de Serra Negra. Aliás, todo o Circuito das Águas Paulista concentra um grande número de propriedades que estão produzindo café com muito carinho e dedicação, e Serra Negra pôde apresentar seus cafés premiados nesse festival. Foi verdadeiramente emocionante”.
A fala de Sílvia é seguida por Giuliana Marchi, produtora rural e proprietária do Café Santa Serra: “É isso mesmo, Ibraim! Estamos muito felizes de participar em mais um ano ao lado de grandes produtores de café aqui da nossa cidade, bem como de produtores de queijo, cachaça, entre outros, são verdadeiras riquezas da nossa serra. Estão todos muito felizes, especialmente tomando um café de qualidade com esse friozinho que agrada todo mundo. Aproveito para deixar o convite para que o público compareça no próximo ano”.
E por falar em produtos que não são café, mas são, de fato, riquezas da serra, Ricardo Schiavinato, engenheiro agrônomo e CEO da Nata da Serra de produtos orgânicos dá a sua versão sobre o festival: “Está sendo espetacular, porque além do público provar e comprar o café, ele também tem acesso a outros produtos feitos aqui na nossa cidade, como queijo, cachaça, vinho e artesanato, e isso é muito legal para todos nós. O turista que vem para a festa fica feliz ao saber que não aqui não tem apenas café, mas inúmeros outros produtos locais”.
E quem acompanha o relator é Mari Carvalho, da Belo Sapore, que produz geleias e chutneys artesanais: “Ibraim, eu nunca vivi um festival desse tamanho, com esse movimento e essas pluralidades de riquezas e pessoas. Para a festa, fizemos uma edição especial com combos com café em nossas geleias e está um sucesso. Já foi preciso fazer duas reposições, os palitinhos de degustação também acabaram e precisamos trazer mais, ou seja, está muito legal. E mais do que isso, tem muito carinho envolvido, as pessoas entendem que a gente tem um trabalho artesanal, orgânico e cuidadoso com a terra, com o produto e com as pessoas, e isso faz toda a diferença. Estou muito feliz em participar ao lado do pessoal da Santa Colmeia que está dividindo o espaço da barraca aqui comigo, até porque, seria impossível fazer isso sozinha, porque é muito movimento e é necessário um trabalho em equipe”.
Manhãs gris e dias tristes. Acordar cedo com a névoa cobrindo a montanha não é nada fácil, especialmente quando o termômetro não tem força para sair dos primeiros dígitos. É necessário, então, tirar do guarda-roupa as peças mais quentes e pesadas, a fim de vencer o frio do outono que avança na serra. Ficar em casa não é uma opção, afinal, foi muita luta conseguir reunir os poucos participantes da primeira edição do Festival do Café, realizada na Praça João Zelante, no centro de Serra Negra. As primeiras edições do festival podem não ter sido tão glamurosas, com poucas barracas, um público menor e menos gente ainda trabalhando. Mas é assim que todo sucesso começa, vem de mansinho, devagar, fincando raízes e criando tradição. Aos poucos, até conquistar o coração, como o próprio café. Atualmente, o Festival já alcançou o coração e o paladar dos serranos, que se preparam exclusivamente para participar do evento, como Tiago Ricci, que aproveitou a tarde de domingo para passear com a família: “O evento está lindo e valoriza muito os produtores locais, o que eu considero algo muito importante para o município. Além disso, a festa como um todo está maravilhosa e muito bem organizada, com mesas e cadeiras para todos se sentarem, espaço amplo para circulação, música boa e tudo muito agradável”.
Quem se lembra das primeiras edições é o vice-prefeito de Serra Negra Rodrigo Demattê, que aproveitou a ocasião para engrandecer o café local e parabenizar os produtores pela maravilhosa entrega ao público: “É um evento inominável, vamos dizer assim, que começou pequeno e agora cresceu, está num tamanho bom, estruturado, com as barracas podendo receber muita gente ao mesmo tempo e com bom atendimento. Esse é o resultado do sucesso do café de Serra Negra, premiado, café de montanha, relevo, com uma natureza propícia para o plantio. Fico muito contente em ver tudo isso, e aproveito para parabenizar o Juliano (Belini), secretário de Turismo, e ao prefeito Elmir (Chedid), que trabalharam para montar toda a estrutura, bem como o Fundo Social, através da primeira-dama, as Secretarias de Educação e de Serviços Municipais. É, de fato, muita gente envolvida para que possamos receber essa qualidade de turismo em nossa cidade, e o pessoal do café fazer bons negócios, divulgando ainda mais Serra Negra para todo o país”.
Citado pelo vice-prefeito, e um dos responsáveis pela organização do evento, o secretário de Turismo e Desenvolvimento Econômico, Juliano Belini fala que o evento neste ano superou todas as expectativas: “Já tivemos o primeiro dia, que foi fantástico, a sexta-feira, foi maravilhosa. Hoje, estamos aqui, no sábado, um evento lotado desde as nove horas da manhã, e segue ao longo do dia. É um evento que veio para ficar e só tem a crescer, ajudando todos os nossos produtores e a nossa cidade no desenvolvimento econômico, agradando o público, o turista e também para a população da cidade, porque está sendo muito fantástico”.
Fechar as malas de roupa, ligar o carro e pegar a estrada deixando a selva de pedras para trás é um sonho que muita gente realiza ao optar por visitar o Circuito das Águas durante o Festival do Café. Verdade é que muita gente vem longe para curtir a festa, um dos momentos mais aguardados do ano não só por quem habita a serra, mas por aqueles que a guardam no coração.
Mas o Festival é apaixonante não somente para aqueles que vêm das grandes cidades e, talvez, nunca tenham visto um pé de café na vida. A festa é formada também por quem, daqui de pertinho, resolve dar um pulo em Serra Negra e aproveitar para saborear uma deliciosa bebida quente, como é o caso de Danilo Fávero, que frequenta o Festival há anos: “Eu acompanho este evento há alguns anos, Ibraim, e cada ano que passa, vejo uma crescente enorme, e isso é fundamental para o Circuito das Águas, principalmente para os produtores da região. Eu, como barista, ao lado dos produtores e demais profissionais do setor, temos o intuito de sempre alavancar o café, e uma das formas de mostrar a potência dos produtos que temos aqui é uma feira como essa que Serra Negra faz, trazendo público de outras localidades que ainda não conhece os produtos daqui, e acaba dando de cara com cafés excelentes. Há aqui no Festival, cafés que são considerados entre os três melhores do Brasil, e isso dentro de Serra Negra. Isso é muito importante, tanto para a cidade, quanto para o Circuito das Águas Paulista”.
E assim como ele, Júlia Vancini vem de Socorro para curtir o momento entre amigos: “Esta é a terceira vez que participo do Festival, e percebo que o evento está crescendo a cada novo ano, e isso é muito bom para os produtores”.
Bom para quem produz, bom para quem faz a festa acontecer de cima dos palcos. Música, dança, viola e muita animação deu o tom do Festival no palco que abrigou as atrações artísticas ao longo dos três dias. Vindo de Pedreira, município que também pertence ao Circuito das Águas Paulista, o artista Jota Peron veio interpretar três papeis distintos ao mesmo tempo: o de músico, tocando violão no show de Alexandre Reys; de cafeicultor, como proprietário da Peron Cafés Especiais, que inclusive revende marcas produzidas em Serra Negra; e de turista, aproveitando a festa da melhor maneira: “Vim acompanhar o Alexandre Reys, que fez uma apresentação belíssima ali, mas vim também prestigiar o café de Serra Negra, afinal, os grãos do Circuito das Águas Paulista são reconhecidos em todo o Brasil. Eu, que viajei por todo o Brasil fazendo shows, sempre me encontrava com pessoas que pediam para eu levar os cafés Serra Negra na próxima oportunidade. Fico muito feliz em ver muitos amigos aqui, produtores que, inclusive, temos a alegria de vender seus cafés lá em Pedreira, no Peron Cafés Especiais. um empório dedicado à bebida bem no centro da cidade. E eu não poderia deixar de vir prestigiar os amigos aqui de Serra Negra e, claro, tomar um cafezinho também”.
E é mesmo um café conhecido e reconhecido em todo o território nacional. Premiados, os grãos do Circuito das Águas Paulista obtém excelentes resultados pelos concursos por onde passa, em níveis regional, estadual e nacional. Um deles, o Arara Amarelo da safra 2025 do Café Nonno Marchi, levou o prêmio de terceiro melhor café do Brasil no concurso Florada Premiada, em Belo Horizonte. O café de Roberto e Rosana Marchi foi servido aos participantes do Festival e, quem teve sorte, levou um pacotinho para casa. Quem chegou atrasado, perdeu, porque o lote acabou. Agora, é torcer para a colheita de 2026: “É uma riqueza, mesmo. Na verdade, tem muitos cafés de qualidade produzidos aqui em Serra Negra, e isso é visto aqui no Festival, que está maravilhoso, repleto de turistas e contribuindo para o crescimento da cidade. Sem dúvida, podemos dizer que a festa está muito bem organizada e ainda mais bonita esse ano”.
“É rapidinho, eu já venho. Só vou engolir o meu lanche e já venho falar com você”. Esbaforido, no sábado à tarde, segundo dia do evento, Vital Rizzieri, da Rizzieri Cafés Especiais ia de um lado para o outro tentando conversar com os clientes, preparar um café e, de quebra, dar uma entrevista para a imprensa. “Está muito interessante, muito gostoso e mega movimentado. Cada vez mais, o Festival vem crescendo em ritmo acelerado. O café movimenta e fortalece o comércio da região, completando a experiência do passeio para o turista. E quem frequenta o evento, aproveita o cheirinho do café da nossa região. Eu reforço o convite que todos já fizeram para voltar ano que vem”. Se foi difícil sobrar tempo para o almoço no sábado, no dia seguinte, o domingo, último dia da festa, Vital Rizzieri relatou: “Você acredita que nem comer meu salgado eu consegui hoje? Não deu para parar um minuto”, comentou o produtor com o característico sorriso que se estendia de uma orelha a outra.
Estampado, inclusive, no brasão do município, o café não é apenas pretexto para se fazer uma grande celebração em Serra Negra. Os primeiros agricultores plantaram a semente daquilo que viria a ser a principal razão de ser destas terras, que hoje colhem o resultado mais doce de seus esforços, com grande reconhecimento e a certeza de que o Circuito das Águas é berço de alguns dos melhores e mais saborosos cafés do Brasil.
Você pode ler essa história na íntegra, com os depoimentos dos participantes deste episódio, além de ouvir os próximos da série Entre Linhas e Vozes no canal da Freestory no Spotify, clicando aqui.