Henrique Vieira Filho
Henrique Vieira Filho

Henrique Vieira Filho é artista plástico, agente cultural (SNIIC: AG-207516), produtor cultural no Ponto de Cultura “ReArte” (Certificado Ministério da Cultura), Museólogo no Museu Rearte (reconhecido pelo IBRAM/Ministério da Cultura), gestor Pontos MIS (Museu da Imagem e do Som/SP), diretor de arte (MTE 0058368/SP), produtor audiovisual (ANCINE: 49361), escritor, jornalista (MTE 080467/SP), educador físico (CREF 040237-P/SP), psicanalista, sociólogo (MTE 0002467/SP), historiador, professor de artes visuais, pós-graduado em Psicanálise, em perícia técnica sobre artes e em Biblioteconomia.

Colunas

Memórias De Um Cientista Arrependido

Henrique Vieira Filho reflete, com humor confessional e ironia, sobre o abismo entre o saber acadêmico e a sabedoria ancestral. Relembrando suas avós Emma (raizeira) e Josepha (benzedeira), o autor critica a burocracia estatal que tenta regulamentar conhecimentos tradicionais e anuncia a programação gratuita de julho no Museu ReArte, voltada à botânica prática e aos saberes nativos. #HenriqueVieiraFilho #MuseuReArte #SerraNegra #SaberesTradicionais #Raizeira #MedicinaPopular #HumorEArte #CulturaSerrana #BurocraciaNão #AlemDeUmLivrinho

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Memórias De Um Cientista Arrependido
“Clube de Leitura Além de Um Livrinho” -Ilustração: Henrique Vieira Filho
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No último sábado, o Museu ReArte virou o ponto de encontro perfeito entre o cinema dos Direitos Humanos e as crianças do projeto "Narrativas Sustentáveis" (uma parceria linda da UNIFAL-MG com o clubinho Além de um Livrinho)

Enquanto a garotada debatia os textos do indigenista Ailton Krenak, dei uma escapada até o nosso jardim aromático para colher umas folhas e dar uma aula prática de chás e temperos. Olhando para aqueles olhinhos curiosos, fui subitamente visitado pela lembrança amorosa da minha avó Emma.

Emma nasceu em 1899 nas nossas montanhas cafeeiras. Nunca pisou numa escola, não tinha diplomas e mal assinava o nome. Mas sabia tudo sobre plantas! Era uma raizeira de mão cheia, daquelas que decifravam o milagre da cura pelo perfume de uma casca ou o formato de uma folha.

A recordação me fez viajar para o dia em que fui agraciado na Academia Amparense de Letras. Diante de discursos infindáveis e pomposos, onde cada colega detalhava teses e títulos acadêmicos, minha bateria social, como é padrão em nós, autistas, já estava operando na reserva. 

Quando finalmente peguei o microfone, a exaustão me deu o dom da síntese mais honesta da minha vida: 

— Boa noite. Como os colegas, tenho graduações, pós e cerca de trinta livros publicados. Mas, minha homenagem hoje vai para minha avó Emma, nascida em Amparo. Ela era analfabeta e infinitamente mais sábia do que eu. Precisei passar a vida estudando para tentar aprender metade do que ela já nasceu sabendo.

Há uma arrogância velada no cientificismo acadêmico. Quando criança, metido a gênio, eu vestia orgulhosamente um jaleco e brincava com tubos de ensaio, ignorando a imensa biblioteca viva que tomava café na nossa cozinha! Enquanto meio mundo vinha de longe buscar as "garrafadas de ervas" da minha avó, eu limpava a lente do microscópio. 

Na idade adulta, precisei correr atrás do prejuízo: estudei fitoterapia (terapia com plantas) a fundo e escrevi dois livros cruzando a Medicina Tradicional Chinesa com a psicanálise junguiana e as ervas brasileiras... tudo para tentar decifrar o que a “velha” fazia por puro instinto.

E vejam a ironia do mundo moderno: ela era aclamada (com toda justiça!) “Mestre do Saber” pelo próprio povo. Já eu, para herdar oficialmente o mesmo título e mais o de "Raizeiro", precisei provar minha competência numa epopeia burocrática que envolveu o IPHAN, o Ministério do Meio Ambiente e o temível SisGen (Conselho de Gestão do Patrimônio Genético). 

Se déssemos tamanha papelada para os verdadeiros mestres tradicionais, eles provavelmente usariam as folhas de formulário para acender o fogão a lenha…

Essa pontada de revolta contra o excesso acadêmico, somada à saudade de Emma e da minha outra avó, a Josepha (que fechava o combo familiar como uma benzedeira de primeira), inspirou a nossa programação de julho no ReArte! 

Teremos uma exposição de artes e mostra de cinema sobre saberes tradicionais milenares e uma oficina prática para ensinar todo mundo a usar a força das plantas no bem-estar cotidiano. Tudo totalmente gratuito — exatamente como o atendimento nos quintais das minhas avós.

O jaleco e o diploma têm seu valor, mas é na terra úmida e no saber descalço que a cura verdadeiramente reside

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