Henrique Vieira Filho
Henrique Vieira Filho

Henrique Vieira Filho é artista plástico, agente cultural (SNIIC: AG-207516), produtor cultural no Ponto de Cultura “ReArte” (Certificado Ministério da Cultura), Museólogo no Museu Rearte (reconhecido pelo IBRAM/Ministério da Cultura), gestor Pontos MIS (Museu da Imagem e do Som/SP), diretor de arte (MTE 0058368/SP), produtor audiovisual (ANCINE: 49361), escritor, jornalista (MTE 080467/SP), educador físico (CREF 040237-P/SP), psicanalista, sociólogo (MTE 0002467/SP), historiador, professor de artes visuais, pós-graduado em Psicanálise, em perícia técnica sobre artes e em Biblioteconomia.

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O Dia em que o Patrimônio Desceu do Pedestal

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O Dia em que o Patrimônio Desceu do Pedestal
Ponto de Memória do Ecossistema Cultural ReArte
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Durante muito tempo, fomos ensinados a acreditar que, para virar “patrimônio”, uma pessoa precisava ter cavalgado um cavalo branco, empunhado uma espada reluzente ou, no mínimo, ter a própria cara esculpida num busto de bronze no centro da praça, servindo de poleiro aristocrático para os pombos locais.

Pois venho aqui anunciar, com a alegria de quem acaba de ganhar um campeonato: a ditadura do mármore caiu por terra!

O Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) oficializou o nosso Ecossistema Cultural ReArte como Ponto de Memória.

Reconhecimento do Ecossistema Cultural ReArte como Ponto de Memória

E não é por falta de modéstia, mas, convenhamos, a ocasião merece uma pequena contagem de medalhas. Com esse novo reconhecimento, chegamos a uma verdadeira quíntupla coroa cultural.

O ReArte já é oficialmente reconhecido como Biblioteca, guardando o saber nas folhas dos livros; Museu, custodiando o tempo em obras e objetos; Ponto de Cultura, fazendo a arte pulsar em exposições e oficinas; e Pontos MIS, levando cinema gratuitamente à comunidade.

Agora chega o Ponto de Memória, coroando esse trabalho de Museologia Social.

Mas você pode estar se perguntando: muito bonito, muitas coroas, muitos títulos... e o que isso muda na minha vida de domingo a domingo, aqui em Serra Negra?

Muda tudo! Ou, pelo menos, muda uma coisa fundamental: a maneira como enxergamos quem faz história. Inspirados na metodologia do Museu da Pessoa, nosso Ponto de Memória parte de uma ideia simples, e, justamente por isso, revolucionária: não são necessários heróis de pedestal para fazer história.

A história pode estar sentada na cadeira da cozinha. Pode estar atrás do balcão da padaria. Pode estar cuidando da horta. Pode estar na fila do mercado. Pode estar naquela senhora que sabe preparar uma garrafada para cada dor do corpo e ainda tem uma receita para a dor de cotovelo.

Porque a história de nossa terra não foi escrita apenas em decretos assinados em gabinetes. Ela foi, e continua sendo, escrita de baixo para cima: no cultivo da roça, no comércio, nas oficinas, nas escolas, nas igrejas, nas festas, nas brincadeiras de infância e, principalmente, nas intermináveis conversas de calçada.

É aí que entra o nosso Ponto de Memória. Em áudio e vídeo, vamos registrar lembranças que poderiam desaparecer junto com seus protagonistas: as brincadeiras de antigamente, o apito do trem cortando as montanhas, os remédios caseiros dos antigos raizeiros, as festas, os costumes e, claro, os famosos “causos”: essa modalidade literária brasileira em que a verdade e a criatividade costumam tomar um café antes de decidir quem vai falar primeiro!

E não pense que isso é coisa apenas para o pessoal da “melhor idade”. A juventude também tem história para contar. Afinal, quem nasceu ontem pode estar guardando a memória de amanhã.

Aliás, talvez uma das maiores riquezas desse projeto seja justamente colocar gerações diferentes para conversar. O jovem pode descobrir como era a Serra Negra de seus avós; o avô pode descobrir que o neto sabe editar um vídeo melhor do que ele conserta um rádio.

E tem mais. Sabe aquela fotografia amarelada da família? A carta antiga? O documento guardado há décadas no fundo de uma gaveta ou dentro daquele baú que ninguém joga fora porque “vai que tem alguma coisa importante lá”? Pois então: pode ter mesmo!

Poderemos digitalizar esse material com nossos scanners e devolver o original intacto às mãos de seu dono. Com autorização, é claro, a cópia digital poderá ser preservada e disponibilizada publicamente pela internet. 

Imagine alguém, daqui a dois séculos, ouvindo a sua voz e descobrindo como era a cidade quando ainda existiam determinadas lojas, costumes, sotaques, festas, profissões e histórias que hoje parecem tão corriqueiras que ninguém pensa em preservá-las.

É assim que descobrimos uma verdade curiosa sobre patrimônio: aquilo que parece comum hoje pode ser extraordinário amanhã. Porque patrimônio não precisa de cavalo branco. Nem de espada. Nem de pedestal. E, muito menos, de pombo.

Acompanhe a evolução desse projeto em www.rearte.com.br.

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