Henrique Vieira Filho
Henrique Vieira Filho

Henrique Vieira Filho é artista plástico, agente cultural (SNIIC: AG-207516), produtor cultural no Ponto de Cultura “ReArte” (Certificado Ministério da Cultura), Museólogo no Museu Rearte (reconhecido pelo IBRAM/Ministério da Cultura), gestor Pontos MIS (Museu da Imagem e do Som/SP), diretor de arte (MTE 0058368/SP), produtor audiovisual (ANCINE: 49361), escritor, jornalista (MTE 080467/SP), educador físico (CREF 040237-P/SP), psicanalista, sociólogo (MTE 0002467/SP), historiador, professor de artes visuais, pós-graduado em Psicanálise, em perícia técnica sobre artes e em Biblioteconomia.

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Funiculì, Funiculà no Jaçanã: Entre Livros, Trens e Saudades

Transformei a subida ao vulcão na urgência do trabalhador brasileiro. Mas para a receita ficar completa, eu precisava de um tempero paulistano: prestei minha homenagem a Adoniran Barbosa. Se em Nápoles o coração canta para a 'Nanniné', em São Paulo ele bate forte pelo 'Trem das Onze'." #ReArte #SerraNegra #Cultura #MusicaBrasileira #AdoniranBarbosa #ImigraçãoItaliana #Mogiana #TremDasOnze #FuniculiFunicula #HenriqueVieiraFilho

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Funiculì, Funiculà no Jaçanã: Entre Livros, Trens e Saudades
Funiculì, Funiculà no Jaçanã Entre Livros, Trens e Saudades - Ilustração: Henrique Vieira Filho

Minha esposa acaba de retornar de São Paulo trazendo duas grandes caixas que, para um bibliófilo inveterado, são o equivalente ao baú do tesouro: o primeiro lote de livros enviado pelo governo estadual para a nossa biblioteca aqui na ReArte. São cerca de cem exemplares que fiz questão de folhear um a um. Mas, como nem tudo são flores, ao mesmo tempo em que me maravilhava com o cheiro de papel novo, já batia aquele desespero técnico ao pensar na trabalheira que será catalogar cada um desses dados no rigoroso padrão bibliográfico... Ossos do ofício!

Entre romances e técnicos, um livro saltou aos olhos: uma obra sobre a imigração italiana. Para quem vive em nossa região, é impossível não se sentir parte daquelas páginas. E, claro, lá estavam elas: as fotos das antigas locomotivas da Mogiana, soltando fumaça e transportando sonhos (e café).

Para variar, minha mente não aguentou o presente e viajou. Pairou sobre uma pauta que eu ainda não havia detalhado aqui: a história de uma composição minha chamada “Se Demoro Aqui, Não Chego Lá”. Ela é, na verdade, uma ponte musical que construí entre o Vesúvio e o Jaçanã.

Tudo começou com a clássica “Funiculì, Funiculà”. Muita gente acha que ela é uma canção folclórica ancestral, mas a verdade é mais prosaica: foi uma música "propaganda" composta em 1880 para celebrar a inauguração do primeiro funicular (aquele bondinho puxado por cabos) no Monte Vesúvio. Foi um sucesso tão estrondoso que até Richard Strauss a "surrupiou" achando que era domínio público na época (e levou um processo por isso!).

Pois bem, inspirado pela interpretação icônica do Pavarotti, percebi que aqui no Brasil a gente não tem muito o hábito de andar de funicular, mas temos uma paixão visceral por trens. Então, decidi "abrasileirar" a jornada. Transformei a subida ao vulcão na urgência do trabalhador brasileiro. Mas para a receita ficar completa, eu precisava de um tempero paulistano.

Foi aí que prestei minha homenagem a Adoniran Barbosa. Se em Nápoles o coração canta para a "Nanniné", em São Paulo ele bate forte pelo “Trem das Onze”. O curioso é que Adoniran, o mestre do sotaque ítalo-paulistano, nunca morou no Jaçanã; ele escolheu o bairro porque rimava perfeitamente com "amanhã". Ele era um gênio da "licença poética" e da linguagem do povo.

Em “Se Demoro Aqui, Não Chego Lá”, eu fundo a alegria vibrante napolitana com a nostalgia do nosso samba. Se no original italiano o refrão convida a subir a montanha, na minha versão a luta é para achar um lugar para sentar e não perder o último trem, porque, como bem disse Adoniran, "minha mãe não dorme enquanto eu não chegar".

É fascinante como a música e a literatura conseguem encurtar as distâncias. Um livro de imigração vindo de São Paulo me faz ouvir o apito da Mogiana e, em segundos, estou cantarolando uma melodia que nasceu na Itália há 145 anos, mas que agora fala com o nosso sotaque.

Nossa biblioteca na ReArte está ganhando corpo e alma. E para quem tiver "bons ouvidos", convido a "clicar" em EP Serra Negra - Henrique Vieira Filho: ouça esta e outras músicas que criei para a nossa terra. Afinal, se a gente demora aqui no presente sem olhar para o passado, acaba não chegando lá no futuro que queremos construir.

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