Enquanto eu montava a exposição de novembro no Ecossistema Cultural ReArte, sob o olhar atento e a curadoria precisa de minha esposa, Fabiana Vieira, notei algo curioso: os bigodes pontiagudos de Salvador Dalí pareciam brotar por todos os cantos.
Eles estavam lá, na seleção das nossas exibições de cinema — que trazem desde a provocação surreal de Um Cão Andaluz até as sequências de sonho desenhadas pelo gênio catalão para Hitchcock em Quando Fala o Coração —, e transbordavam diretamente para as minhas próprias telas selecionadas para o mês, como Salvador Dali Visits The Cittaslow e Surreal Coffee, integrando a mostra Ecos da Mente: Além do Visível.
Mas, a arte é um território de paixões imprevisíveis. Em outubro, após o encerramento de uma de nossas sessões de cinema de quarta-feira, comentei entusiasmado que em breve exibiríamos o clássico Um Cão Andaluz. Para minha surpresa, e diversão, uma visitante muito querida, artista talentosa, soltou do fundo da alma um desabafo: ela simplesmente detestava Salvador Dalí! E, para arrematar, confessou a mesma aversão por Charlie Chaplin, que figuraria em outro filme do mês.
Sorri internamente e lembrei-me do nosso propósito: o Ecossistema Cultural ReArte nasceu justamente para ser esse espaço seguro e acolhedor, onde não existe "resposta errada" nem a obrigação de gostar por convenção. Cada um tem o direito sagrado de amar ou odiar qualquer obra; o que realmente importa é a presença, a troca e a convivência.
Ainda assim, sendo humano, confesso que meu coração de artista sempre vibra quando percebo que o público apreciou os nossos esforços, assim como bate aquela leve apreensão quando o entusiasmo não é compartilhado. É o famoso "em casa de ferreiro, o espeto é de pau". Afinal, sou autor de 29 livros, alguns dos quais ultrapassaram a marca de 40 mil exemplares... e nenhuma das minhas filhas leu uma única página de qualquer um deles! Se nem a nossa própria casa se curva aos nossos escritos, o que esperar do resto do mundo?
Às vezes, o surrealismo mais genuíno não está pintado nas telas, mas na própria vida. Quando me mudei para Serra Negra, há seis anos, nenhuma autoridade local percebeu minha chegada. Em contrapartida, a vizinha cidade de Socorro me convidou para expor por lá quase de imediato. Fiquei feliz e, inspirado por esse gesto, pintei as obras Salvador Dali Visita Socorro e a surrealista Cittaslow Goddess, em homenagem ao título de "cidade sem pressa" que o município havia conquistado.
Já por aqui, em terras serranas, era comum me perguntar com toda a ingenuidade: "Mas o senhor já expôs as suas obras em algum lugar?". Por fora, eu oferecia um singelo "Sim"; por dentro, a mente gritava uma lista que passava por galerias e museus do Brasil inteiro e cruzava os oceanos até Nova Iorque, Miami, Paris, Londres, Viena, Roma, Turim, Cascais, Porto e Tóquio!
A boa notícia para quem aprecia a arte e a boa convivência é que muitas dessas obras que já viajaram o mundo estão penduradas bem aqui, ao alcance de todos no ReArte durante este mês.
E o mundo teve o genial Salvador Dalí, a nossa região pode se consolar em saber que conta, ao menos, com este empenhado e apaixonado Salvador Daqui!