Henrique Vieira Filho
Henrique Vieira Filho

Henrique Vieira Filho é artista plástico, agente cultural (SNIIC: AG-207516), produtor cultural no Ponto de Cultura “ReArte” (Certificado Ministério da Cultura), Museólogo no Museu Rearte (reconhecido pelo IBRAM/Ministério da Cultura), gestor Pontos MIS (Museu da Imagem e do Som/SP), diretor de arte (MTE 0058368/SP), produtor audiovisual (ANCINE: 49361), escritor, jornalista (MTE 080467/SP), educador físico (CREF 040237-P/SP), psicanalista, sociólogo (MTE 0002467/SP), historiador, professor de artes visuais, pós-graduado em Psicanálise, em perícia técnica sobre artes e em Biblioteconomia.

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A Perna Cabeluda No Cinema

O que uma perna peluda tem a ver com a ditadura? ???? No filme 'Agente Secreto', o folclore vira estratégia de sobrevivência: os jornais criavam monstros para driblar os censores! A Perna Cabeluda é o 'agente secreto' do folclore: era mais seguro temer uma perna sobrenatural do que a dura realidade da repressão. #AgenteSecreto #Folclore #CinemaBrasileiro #CinemaNacional #PontoMIS #ReArte #Cultura #PernaCabeluda #AgenteSecreto #ArteVisual #SerraNegra #CensuraNuncaMais

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A Perna Cabeluda No Cinema
A Lenda Da Perna Cabeluda - Ilustração: Henrique Vieira Filho

Aqui na ReArte, o cinema tem ocupado um lugar nobre nas minhas divagações. Estamos em pleno processo de renovação do convênio com o programa Pontos MIS (Museu da Imagem e do Som) e, por isso, é natural que a Sétima Arte venha operando em "primeiro plano" na minha atenção. 

É fascinante observar a retomada do período de ouro do audiovisual nacional, que recuperou o fôlego desde "Ainda Estou Aqui" e agora nos entrega novas obras premiadas como “Agente Secreto” e "Sonho de Trem".

Como artista visual, meu olhar sempre foge para a plástica da imagem. Minha torcida para o Oscar de melhor fotografia está com o brasileiro Adolpho Veloso. Quem assistir ao Sonho de Trem notará que ele, corajosamente, optou pelo formato 3:2 — uma proporção mais "quadrada", muito próxima à fotografia clássica de 35mm. 

Em um mundo dominado pelo widescreen (tela panorâmica), essa escolha estética é um resgate da intimidade; as cenas parecem fotografias de livros de arte, dessas que merecem estar em museus. O centro da imagem, onde está o protagonista, é nítido, mas o mundo ao redor parece estar se desfazendo, como uma memória antiga ou uma pintura a óleo.

E aqui cabe um parêntese divertido: descobri que o aluguel diário de uma das câmeras usadas nessas produções já supera todo o orçamento que recebemos para produzir nossos curtas-metragens sobre Serra Negra! É a velha máxima: a gente faz milagres com criatividade, enquanto o mercado opera em outra galáxia financeira.

Mas nem só de luz vive o filme; ele precisa de sombras. No caso de Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, a ironia já começa no título e se desdobra em referências sutis, ao mostrar uma televisão passando o filme “O Magnífico”, em que Jean-Paul Belmondo interpreta um escritor que imagina a si mesmo como o agente secreto "Bob Saint-Clar”, bem como a presença do livro “O Agente Secreto”, de Joseph Conrad, na casa que em que vivem, secretamente, foragidos do governo.

Mas, quem merece um prêmio como atriz especialmente convidada é a “Perna Cabeluda”! Para quem ama folclore como eu, essa figura é um prato cheio! No Recife dos anos 70, a Perna Cabeluda era mais que um susto de calçada; era uma estratégia jornalística. Em tempos de censura pesada, onde era proibido noticiar a repressão política ou a violência doméstica, os jornais colocavam a "Perna" como protagonista. Se alguém apanhava ou sumia, a culpa era desse "monstro". 

Era a forma que a imprensa encontrava para driblar os censores, transformando o pavor real do Estado em um delírio coletivo folclórico. Assim como ninguém sabia de onde a Perna vinha, ninguém sabia quem era o informante do DOPS ou quem estava sendo vigiado. A Perna Cabeluda é o "agente secreto" do folclore: ela ataca do nada e desaparece.O cinema nacional está provando que, para contar a nossa verdade, às vezes precisamos projetar nossos monstros na tela.

E nós, aqui na ReArte, seguimos firmes para garantir que essas imagens cheguem até você!

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