Ibraim Gustavo
Ibraim Gustavo

Jornalista, pós-graduado em Marketing, MBA em Comunicação e Mídia, e MBA em Empreendedorismo e Inovação. Empreendedor, é sócio-fundador da Freestory – A primeira plataforma do Brasil de autodescrição com storytelling, IA e IoT. Com formação em Profissões do Futuro (O Futuro das Coisas) e no Programa de Capacitação da Nova Economia (Startse). É também músico, escritor, roteirista e storyteller.

Colunas

Entre Linhas e Vozes - Episódio 14: Festival do Café Especial do Circuito das Águas celebra centenário de Marie Curie em Águas de Lindóia 

Profissionais do setor e coffee lovers se reúnem no último fim de semana no Balneário Municipal

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Entre Linhas e Vozes - Episódio 14: Festival do Café Especial do Circuito das Águas celebra centenário de Marie Curie em Águas de Lindóia 
Evento contou com a participação de baristas que prepararam receitas com cafés especiais para o público presente | Ibraim Gustavo
Entre Linhas e Vozes - Episódio 14: Festival do Café Especial do Circuito das Águas celebra centenário de Marie Curie em Águas de Lindóia 
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13 de agosto de 1926. Enquanto o mundo via nascer o líder revolucionário cubano Fidel Alejandro Castro Ruz, o Brasil recebia uma ilustre visita, que marcaria o país para sempre. Vinda da cidade do Rio de Janeiro, a capital do país à época, desembarcava de um trem noturno em São Paulo a física e química franco-polonesa Marie Skłodowska-Curie, duplamente vencedora do Prêmio Nobel -  mais importante reconhecimento acadêmico do planeta - por suas pesquisas sobre a radiação (prêmio de Física, em 1903), e pela descoberta dos elementos rádio e polônio (prêmio de Química, em 1911). Madame Curie impactou não apenas o país, como um todo, mas de maneira mais especial a região do Circuito das Águas Paulista, com foco no município de Águas de Lindóia. 

A convite do médico Francisco Tozzi, a pesquisadora partiu de trem na manhã de 14 de agosto da Estação da luz, em São Paulo, viajou até Mogi Mirim-SP e, após passar de carro por Itapira, visitou as Termas de Lindoya (atual Águas de Lindóia), juntamente com uma comitiva de cientistas e com sua filha Irène Joliot-Curie, também vencedora de um Nobel, este de Química, em 1935, fruto de sua descoberta da radioatividade artificial. Ao visitar as propriedades locais, Marie Curie atestou que as águas do manancial local possuíam forte radioatividade natural. 

Exatos cem anos depois, outra comitiva, essa carregando filtros, coadores e pacotes de café, também chegou à Águas de Lindóia, mais precisamente ao Balneário Municipal, de onde vertem águas com poderes quase miraculosos. Se dentro de uma xícara de café existe 99% de água, aqui em nossa região não se trata de qualquer água. E isso faz toda a diferença na qualidade final do produto apreciado por amantes do café - os coffee lovers - baristas, profissionais do setor e público em geral, que visitou o Festival do Café Especial nos dias 15 e 16 de agosto, na Ágora do Circuito, em Águas de Lindóia, como diz Tuffi Bichara: “O Festival é ótimo, acontecendo num final de semana bem gostoso, com muitos produtores do Circuito das Águas e, ainda por cima, comemorando os cem anos da visita da Madame Curie aqui no balneário. O convite é para que o público conheça e prove nossos cafés especiais”.

O proprietário do Sítio Cafezal em Flor, de Monte Alegre do Sul, levou ao festival as variedades Catuaí Amarelo, o Blend Moka, o Geisha - exótico, originário das montanhas de Geisha, na Etiópia - e o famoso Café da Marvada, produzido por meio de fermentação controlada a partir de uma levedura da premiada Cachaça Campanari, também de Monte Alegre.

Cafés intensos e suaves, com notas aromáticas e complexas e grãos fermentados. Alguns com acidez mais elevada, e outros com maior equilíbrio nesse quesito. São inúmeras as opções para quem gosta de café.

Conhecido de muita gente que frequenta os festivais e as festas do interior de São Paulo, Edelberto Vecci representou ali muito mais que a bebida do café. Ele trouxe consigo toda a história, já que a Café-i-Cultura traz uma marca própria do sítio Vale do Ouro Verde, de Serra Negra, onde também está localizado o Museu do Café. “O pessoal está conhecendo os cafés e o evento está muito bom. Aqui, trouxemos os nossos cafés, de produção própria, além de uma linha de licores, de coadores, que trazemos junto com o café para montar os kits. Temos também a cerveja especial, uma pilsen, produzida com extrato de café e cacau, e é muito boa também”, disse.

Cultura, história e economia

Para Bruno Tardelli, diretor-administrativo do Consórcio Intermunicipal para o Desenvolvimento do Polo Turístico do Circuito das Águas Paulista (CICAP), em toda a sua história o café não apenas trouxe sabor e aroma às mesas das famílias que construíram a região. Ele é também sinônimo de progresso e desenvolvimento das cidades do Circuito: “Ibraim, é sempre um prazer estar junto contigo e junto com todos os produtores de café do Circuito das Águas. O evento é maravilhoso, mais uma edição incrível e, com ela, podemos levar o que tem de melhor para todo o público que visita o Balneário, aqui em Águas de Lindóia: os cafés especiais do Circuito das Águas Paulista, que vem de encontro com a água mineral que possuímos aqui. Vale lembrar que o café é uma fonte de renda muito grande para a nossa região e que grande parte da nossa economia é baseada na cafeicultura. Portanto, ver essa economia perdurar além do tempo, gerando emprego e renda até hoje, é muito importante”, salientou Tardelli.

A presidente da Associação dos Produtores de Cafés Especiais do Circuito das Águas Paulista (ACECAP), Sílvia Fonte, assegura que o evento não trouxe ao público apenas os melhores cafés, mas a bebida preparada com a melhor água do mundo: “O evento está sendo o segundo aqui em Águas de Lindóia, nesse balneário maravilhoso, com uma energia incrível e com a melhor água do mundo. Estamos trazendo os nossos melhores cafés do Circuito das Águas Paulista, com produtores incríveis, ganhadores de concursos e excelentes cafés. O público já está colocando no calendário: todo mês de agosto vai ter o Festival do Café aqui em Águas de Lindóia, e isso é muito bacana, porque as pessoas voltam procurando o nosso café para levar para casa”.

Ela afirma que a escolha do público é o maior dos reconhecimentos para o produtor: “Isso significa que realmente possuímos um café de qualidade. Nós temos uma identidade que está sendo reconhecida pelo público, tanto por turistas, de várias cidades que encontramos aqui, quanto do próprio morador de Águas de Lindóia e da região”. Em seu estande, Sílvia Fonte ofereceu ao público café moído e em grão, balas e geleias de café e outros itens para casa, como balanças, moedores de grãos e xícaras personalizadas.

Altamir Caralli e Vera Lúcia Baldo estavam de passagem por Águas de Lindóia quando descobriram que uma velha amiga estava na cidade expondo seus cafés. Sílvia Fonte, produtora do Café dos Leais, trabalhou com Vera Lúcia, e o acaso fez com que as amigas se reencontrassem no interior para… tomarem um café.

“Viemos conhecer a região porque pretendemos passar uns dias aqui e, logo no primeiro sábado de sol, falei para minha esposa que iríamos passear, porque somos muito espontâneos e resolvemos as coisas muito rapidamente. E, por pura coincidência, uma amiga da Vera está expondo aqui hoje, é a Sílvia Fonte”, relatou Altamir. Sua fala foi completada pela esposa: “Trabalhamos juntas durante muito tempo, e agora ela é empreendedora em Serra Negra. Já conseguimos conversar e, agora, estamos curtindo a feira, que está muito legal, muito bonita”, concluiu.

O Festival movimentou a região ao longo dos dois dias, trazendo muito sabor e aroma para um dos eventos que já está fixo no calendário de Águas de Lindóia, atraindo moradores e visitantes que, inclusive, retornaram em 2026 para prestigiar os cafés especiais da região, como atesta Sérgio Souza, produtor local de café orgânico e em sistema agroflorestal. “Até agora eu não consegui respirar (risos). Está passando bastante gente, tanto daqui da cidade quanto turistas, vindos de outras cidades, e estão curtindo os cafés. Para este festival, trouxemos os grãos que produzimos aqui mesmo, em Águas de Lindóia, uma produção de café especial orgânico, e apresentamos também os cafés de uma parceria nossa, de Serra Negra, o Café da Montanha”.

Assim como Sérgio Souza, a produtora serrana Rosana Marchi, também agradece a participação dos visitantes. Ela participou do evento com alguns dos seus melhores e mais premiados cafés, incluindo o da variedade Arara Amarelo, que ficou em terceiro lugar em nível nacional no Concurso Florada Premiada de 2025, somando mais de 90 pontos: “Este ano o festival está ainda mais movimentado que no ano passado. Tem vindo muita gente de fora, já encontrei pessoas vindas de Limeira e outros locais também. Apresentamos ao público os nossos cafés premiados, como o Arara, que ficou em terceiro lugar de melhor café do Brasil em 2025”.

Leonardo Mota, saiu de Araras para, logo em sua primeira visita à cidade, beber alguns dos melhores cafés do interior do estado e do país, dando destaque para o encontro dos cafés especiais e de um espaço tão icônico: “O evento está maravilhoso, com muitos cafés especiais de ótima qualidade, além da comemoração do centenário da cientista que veio aqui. Eu não conhecia a cidade, é muito interessante, muito bonita, e estamos gostando bastante. Provamos os cafés e são todos excelentes”, afirmou.

Já Luana Fragale tem o prazer de viver em Águas de Lindóia, e aproveitou o fim de semana para prestigiar o evento que movimenta toda a região: “Estou frequentando o evento do café e está muito legal. Vim com minha família, e estamos aproveitando para provar vários cafés diferentes que eu não conhecia. O lugar é muito agradável, um ambiente incrível, e os produtores são ótimos”, concluiu.

Selo de Indicação Geográfica - IG

O trem noturno que partiu da antiga capital do país rumo à cidade de São Paulo trouxe mais que uma renomada cientista. No dia seguinte, ela partiria da cidade grande para se embrenhar nas matas da região que, mais tarde, seria aclamada como o Circuito das Águas Paulista.

Marie Curie não agregou apenas conhecimento, ciência e razão à região. Sua presença em Águas de Lindóia, em agosto de 1926, representava alento, esperança e futuro para os habitantes dos pequenos vilarejos, que três anos mais tarde, veriam a derrocada do café após a quebra da Bolsa de Nova York. A água era fonte de milagre.

E foi justamente a partir daí que a região saiu da obscuridade e alcançou prestígio em todo o país como um dos mais importantes destinos para quem buscava a cura de inúmeras doenças. A radioatividade da água mineral, foco da pesquisa da cientista, tinha poderes medicinais e, mais que isso, profetizava que o futuro promissor estava chegando.

E é justamente isso o que o Festival do Café Especial do Circuito das Águas Paulista celebrou nos dias 15 e 16 de agosto de 2026, exatos cem anos após a visita de Madame Curie ao Balneário Municipal de Águas de Lindóia. Com produtores premiados pela excelência dos grãos, o público pode apreciar sabores e aromas diferenciados, que conquistam os paladares mais exigentes. No festival, o café do Circuito das Águas Paulista é preparado com a água do Circuito das Águas Paulista. E isso... faz toda a diferença.

Em 26 de maio deste ano, os cafés especiais do Circuito das Águas Paulista foram reconhecidos pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) com a Indicação Geográfica (IG), no segmento de Indicação de Procedência (IP), atestando uma maior qualidade para os grão locais. A ACECAP, responsável pelo registro do pedido junto ao órgão público, afirma no documento de solicitação, entre outras coisas, que a qualidade das águas que circundam a região em suas montanhas e vales são o grande diferencial no resultado final do produto. Além do cuidado dos próprios produtores em suas lavouras, os grãos de café da região garantem maior doçura ao serem regados com a água existente nessas redondezas. Madame Curie estava certa. 

“Esta é a primeira participação da Casa Gandolphi no Festival do Café Especial, e tem sido bem legal ampliar o contato com outros produtores, além de conhecer o público final, conversar com eles e mostrar o nosso café, falar da diferença do café especial e do tradicional, do supermercado, e abordar a conquista tão importante da IG do Circuito das Águas Paulista, podendo mostrar ao consumidor que a região tem cafés de excelente qualidade. Esta é uma oportunidade muito boa por todos esses fatores. Temos conversado com pessoas daqui da região e também com muita gente de fora vindo conhecer os cafés. Tem sido, para nós, uma experiência muito legal, e para o café da região, principalmente”, testemunhou Vinícius Gandolphi, da Casa Gandolphi de Cafés Especiais, da cidade de Amparo.

Giovana Barbosa, da Celebrity Coffee, também de Amparo, convida o público a conhecer e, claro, provar um novo tipo de café, ainda desconhecido por muita gente: os cafés especiais: “Estamos aqui apresentando todos os cafés. O convite é para quem puder,  degustar e conhecer os cafés especiais e prestigiar os produtores regionais, pois este é um evento voltado para realmente experimentar cafés especiais, conhecer novos sabores e entender um pouquinho mais sobre a linha de cafés especiais”.

Charmosas harmonizações

Para os amantes do café, não se trata apenas de beber o líquido. O momento é muito mais uma cerimônia que um simples ato rotineiro. Há uma liturgia quase sagrada ao moer os grãos e sentir os primeiros aromas elevarem-se no ar; despejar a água com cuidado em proporções equilibradas faz da ocasião uma verdadeira celebração. Sorver a bebida é, nesse contexto, um ritual, que pode ser acompanhado e harmonizado com outros tantos itens da gastronomia, como queijos, geleias e meles. E para falarem disso, estavam lá as representantes da Queijaria Sítio Monte Alegre, Hellen Brolezze, da Belo Sapore, Mari Carvalho, e do Apiário GS, Josyane Gregório.

“O festival é muito importante para a nossa cidade e também muito importante para a nossa marca. Hoje nós trouxemos alguns dos nossos queijos artesanais que, inclusive, receberam premiações, como o queijo Cervejeiro e o Parmesão, laureados em 2026. Além deles, temos ainda outros queijos que receberam medalhas no ano passado”, disse Hellen. Sua fala foi acompanhada por Mari Carvalho, que comentou que participar dos festivais é sempre uma grata surpresa: “O pessoal é bastante curioso e muito interessado em saber um pouco mais sobre o que vendemos aqui. E o Festival de Café é uma tradição que sempre atrai um público muito especializado, com real interesse nas diversidades que temos aqui. E, para variar, a nossa carro-chefe é a geleia especial do Festival, feita à base de café. Além dela, temos ainda a geleia de especiarias, bem como os licores, o chutney e o kit para presente”.

O trio é formado ainda por Josyane, que comentou sua experiência nesta edição do festival: “Está sendo incrível. Temos aqui a degustação de favo de mel, os produtos das abelhas sem ferrão, que nosso apiário está introduzindo na nossa linha de produtos, diferentes tipos de mel e todos os visitantes estão adorando. Aqui, por exemplo, temos o mel Silvestre, de abelha Ápis, com florada predominante capixingui, e Assa-peixe. Temos também o própolis verde, o pólen apícola, que as abelhas colhem direto das flores, o mel de Jataí e o pão de mel”.

Da roça às telas

O vento que soprava entre as colunas do balneário tirou para dançar as ideias de uma mulher que cresceu vendo a colheita de café. Do pé à xícara; da xícara à tela. Val Espinhara ressignificou o café nos últimos anos, deixando de ser apenas lembrança e bebida, para se tornar vivência imersiva.

Café é bebida. Mas é item gastronômico, é reunião, é mesa, entre amigos, conhecidos e familiares. Mas para além disso tudo, café é também, ora, quem diria, arte. E pelas mãos da artista plástica Val Espinhara, seu valor é inestimável e imensurável. “Está sendo uma experiência ótima, eu adorei a cidade, que é maravilhosa, e adorei o convite para participar também. Muitos alunos se inscreveram para a oficina de pintura com café”, disse Val, que contou que utiliza a técnica há algum tempo: “Eu nasci na roça e minha família trabalhou na cafeicultura por muitos anos. Ou seja, tenho uma ligação afetiva com o assunto. Já nas artes plásticas, estudando sobre pigmentos de cores naturais, me reencontrei com o café agora com outro significado para mim. Eu pinto com café há cinco anos, e pretendo continuar”, relatou Val Espinhara.

O Festival do Café Especial do Circuito das Águas Paulista é o grande momento de convergência da gastronomia, da arte, da cultura, da história, da tradição e da inovação, todas juntas, sem disputas entre si. E para essa celebração, o Balneário Municipal de Águas de Lindóia se tornou o panteão da ciência, dos aromas e dos sabores que nos unem a todos. E esse encontro foi só a gênese do que ainda está por vir em 2026, em 2027 e além.

Depois de sua estadia na região, outros trabalhos reivindicavam a presença de Madame Curie de volta à Europa. Para o mundo, a cientista foi imortalizada pelas láureas que recebeu em vida. Para a nossa história local, Marie redesenhou o Circuito, e suas descobertas - ou profecias - se cumprem a cada novo preparo de um verdadeiro café especial do Circuito das Águas, com a água do Circuito das Águas Paulista.

Você pode ouvir essa história na íntegra, com os depoimentos dos participantes deste episódio, além de conhecer os próximos da série Entre Linhas e Vozes, no canal da Freestory no Spotify, clicando aqui

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